16 de mai de 2009

Ensaio III

Ensaio I
Ensaio II

Ensaio III

Ensaiaram aquela amizade meses a fio. Ajudou, é verdade, a companhia dos gêmeos Sofia e Artur, amigos em comum. Sofia era mais intelectual, convidava-os sempre para teatros, museus e filmes “Cult”; Artur era o sujeito noturno, marcava as saídas para dançar, ou mesmo para jogar conversa fora no boteco depois das aulas. Apesar dos gostos diferentes, os quatro estavam sempre juntos.

Já estavam quase sendo elevados à categoria de irmãos postiços, pois viviam na casa dos gêmeos. As tardes de domingo eram de todos os momentos os mais divertidos. Juntavam alguns outros agregados à família e reviviam a infância com Banco Imobiliário, Imagem & Ação, Adedanha, Vítima, Detetive e Assassino etc. Aliás, a Adedanha era o único momento em que às vezes se desentendiam: eram sem favor nenhum os dois melhores jogadores, imbatíveis, e travavam um duelo feroz, seguidos de perto por Sofia.

Sentavam sempre no conforto do chão da varanda. Hoje ela não estava bem, Sofia e ele estavam empatados no primeiro lugar.

- Programa de TV: Fantástico, gritou Sofia, a primeira da ordem
- Fama, disse Rebeca.
- Fantástico também, lamentou Renato. Sofia amarrou a cara.
- Friends, sorriu Helena.
- Nada, disse Artur constrangido, não deu tempo.
- Fica Comigo, comemorou ele, desempatando o jogo com Sofia.
- Sinto muito, interrompeu ela ironicamente, 5 para você.

Ele ficou transtornado e tentou puxar o papel da mão dela. Ela foi mais rápida, ele quase caiu. Todos riram. Enquanto isso ele sorrateiramente conseguiu olhar o papel dela. Estava escrito “Família Dinossauro”, como ele previra. As risadas foram diminuindo e ele sentiu as mãos dela puxando as suas para levantá-lo. Virou-se. Viu que sorriam também os olhos dela.

O tempo parou. Começou uma gritaria ao fundo, mas nenhum dos dois ouvia. Depois de experimentarem o infinito, decidiram continuar a jogar. Sabiam ter todo o tempo do mundo, e que nada mudaria.

E ele resignou-se, feliz, com seus 5 pontos.

8 comentários:

Vitor disse...

De novo depois de relutar bastante resolvi postar a terceira parte do "Ensaio". Estou com "depressão pós-parto", pq acho que esse último ficou mto bobo, alémde confirmar todas as expectativas de que o primeiro da série é sempre o mais interessante.

Bem, vida que segue.

Marcela disse...

Nada a ver, Vitor! eu gostei dos três. Super romântico, espero que eles consigam ficar juntos =)
Demorei bastante pra lembrar que programa era 'fica comigo',rs... mas acho que ficou ótimo os dois empatados.
Vi que vc usou o nome da sua 'filha' na história..rs

Carol disse...

Ah, também achei que ficou ótimo! Gosto das sutilezas dos seus textos... Os três ensaios contém o elemento do "momento mágico", que neste último finalmente aconteceu.

Engraçado, outro dia estava pensando algo parecido com esse "experimentar o infinito" da sua história. Realmente deve ser delicioso e seguro.

Beijos, Vitor!

Danusa disse...

Pois esse foi o que eu mais gostei, Vitor!!! lindo demais!! o texto em si está mais simples mesmo, mas - a-ha! - eis que vc conseguiu captar os movimentos exatos de um jogo, quase inconsciente, de atração e afastamento, onde a sincronização nem sempre é fácil, mas acontece, e é lindo... :)
continue escrevendo!!

CArina CAmila disse...

Ai ai esses dois.. Adorei o "experimentarem o infinito"...
E esse todo tempo se vai tão rápidoo..
=/

Beijos Vitor..

Se descobrir mais algo sobre mim, avise-me..
Engraçado me reparar por suas palavras..rs

Anitha Rosenrot disse...

Ah...Ufa!Eu fiquei meio preocupada com o seu comentário hahaha
Fiquei pensando se não tinha lido aquilo em algum lugar e por acidente acabei achando que era crianção minha.Acontece as vezes,vai saber. ;)
Mas então,não achei teu texto bobo... Achei muito bonito até! É simples,mas faz sonhar! Gostei muito.
Vou voltar aqui mais vezes.

----- disse...

seu texto me fez lembrar, sei lá por que, de um filme do bertolucci (Os sonhadores).

aí, depois, me lembrou mais os carnavais no vale do ipê.

então, pensei nas férias de janeiro em cabo frio.

foi uma nostalgia linda. obrigada, vituxô. ;)

Flávio Vinícius disse...

Engraçado: A arte imita a vida!; A vida imita a arte!; A arte imita a arte!; A vida imita a vida!.
O número de tópicos que eu poderia dizer que tem inspiração em algo que eu já vi é interessante. Poderia eu dizer que foi de propósito? Não sei.
Mas, é deveras muito curioso a união de realidades distintas no seu texto:
O passado, o presente, o futuro(!?) e um quarto tempo que eu chamaria de imaginação ou desejo se encontram de uma maneira espetacular e inusitada. Mais do que um texto literário "Ensaio" revela muito sobre ti. Até mesmo quando você tenta agrupar universos que não são seus à obra.

Mas afinal, isso é um ensaio para o que? Para a vida?
Será que é realmente preciso um ensaio? O poder de criação do ser humano é absurdo, e acredito que entramos na vida meio de supetão para dar tempo de ensaiar algo...
Talvez, mais que um ensaio, seja um show de improvisos.