21 de jan de 2010

Sobre jardins e borboletas

Sobre jardins e borboletas

Dizem que não se deve caçar borboletas, basta cultivar o próprio jardim que elas aparecem.

Cândido, um dos meu personagens preferidos da literatura, depois de todas as suas viagens azaradas sempre buscando ver o lado bom de tudo, aprendeu que o melhor mesmo é cultivar o próprio jardim.

Conhecimentos não muito avançados de biologia dizem que borboletas são metamorfose de lagartas. As borboletas depositam os ovos de lagartas, que crescem, formam casulo e depois se transformam em borboletas novamente.

Lagartas são parasitas de vegetais verdes. Vi isso no jardim que meu pai cultiva lá em casa: lagartas devorando a couve que plantamos e cuidamos com todo carinho e atenção. Não importa o tipo de folha, as lagartas devoram!

Bom, se é para cultivar o jardim, melhor não atrair borboletas.

Mas de que vale um jardim sem borboletas?

7 de jan de 2010

Semiótica do descaso meu

Consternada, admito minha incapacidade reflexiva.
Admito quão cansativa a tentativa da mesma pode ser.

Reconheço a bipolaridade de meus pensamentos, incluindo sua inutilidade.
Pude perceber, contando com a dormência de minha insanidade, que as noites ociosas são de semelhança abissal. Dou uma piscadela para a escuridão, dirigindo-me aos pensamentos que fugiram e, pairando sem objetivo ou âmbito, criaram um pesado redemoinho sobre mim.
O denso negrume funciona como um sudário frágil, questionável, para meu corpo. Assim como um fertilizante vital para minha indecisão.
Posso dizer que ser constante faz parte de mim. Sim, ser inconstante também. Não desejo vida longa. Posso fugir de meu presente no futuro.

Escrevo sem interlocutor, não me interessa seu discernimento.
Arisco-me arriscando o prosaico.

Meu desdém é o alívio de alguns, apenas descaso para outros.
Sinto-me confortável em rotinas caseiras, perfumes conhecidos, rostos amados, cores neutras, vícios prestativos. Timidez não me incomoda, apenas auxilia minha ironia. Não sou como aparento. Não almejo felicidade eterna. Objetos insignificantes são demasiado importantes para mim.
Amigos mastigam minhas obsessões, engolem minha personalidade forte e cospem o que há de melhor em mim. Comparo-me ao azul-celeste que me observa. Afinal, estou mais distante do que julgam, aparentemente preenchendo um espaço maior que imaginam.

Meus ressentimentos são meticulosamente camuflados.
Não sou hipócrita o bastante.

Não tenho medo de cerrar os olhos quando os mesmos degredam uma água salgada, reconfortando-os pelo vazio rapidamente preenchido que provocam.
Prefiro imaginar tramas utópicas com o incógnito a fortificar ligações com o íntimo.

Posso ser quem você pensa que conhece e acredita que não.
Alguém que procura no ócio algo para fazer.

Tudo que vejo é uma simples efígie, um esboço de traços leves e delicados, vestígios do desconhecido que luto para desvendar. Iludo-me, forçando meu senso a obedecer ordens pouco comuns e injustamente ineficazes. Sou capaz de escolher um caminho que nunca vi, mas que conheço perfeitamente. Caminho que me conduz a um labirinto espiral e irrevogavelmente incerto.
Resta-me perguntar se sou apta para indagar meus passos, já que meus calos ardem acompanhando uma pulsação cálida, que me percorre por inteira.

É apenas mais uma pergunta cuja pergunta não sei.
Posso conviver com isso, apenas ignore as palavras que escrevi.


Mylana Dandara Pereira Gama