27 de ago de 2008

Da Imaginação

A tristeza é reação normal
Face ao absurdo que é a vida
Mas como posso eu ser triste?
Se conheço as pequenas coisas
E nelas residem uma alegria
Que não pertence a esse mundo
Nem a essa vida...
Quando estou triste
Sempre vem o pôr do sol
Me maravilhar e me fazer crer
Em algo que eu não sei se existe
Mas não seria a imaginação de uma coisa o suficiente
Para torná-la real?
Veja bem, não sei se Deus existe,
Mas se posso imaginá-lo,
Isso não o torna metafisicamente real?
Não teria essa imaginação poder e influência?
As coisas que imagino são suficientemente real
E a realidade é suficiente imaginária
Para me impedir de dizer que algo não existe.
E por vezes chego a crer
Que o que não existe tem mais luz e consistência
Do que as coisas reais.


Íris Kirsten / Ângelo Cruz

16 de ago de 2008

Era uma sexta-feira à noite, e mais uma vez a semana se encerrava da mesma forma. Parei na Presidente Vargas, olhei pro céu estrelado e com uma lua linda, que me fez lamentar pelo dia de sol perdido dentro de uma sala de aula explicando a tal da análise combinatória que tanto nos frustra. Frustra porque os alunos em geral não correspondem. Por outro lado, fiquei feliz ao lembrar que dentro de algumas horas nasceria um belo sábado com sinais de que daria praia. Parei na Central pra comer um salgadinho massudo com um aguado refresco de caju. Já eram 21:31, então tive que me apressar pra não perder o trem que sairia 4 minutos mais tarde, sob a pena de ter que esperar mais meia hora. Fui a passos largos como de costume, em direção à plataforma 6 linha F. Já não tinha mais lugar vago pra sentar então fiquei de pé, me segurando em uma das várias chupetas livres do vagão. O maquinista então resolveu dar o ar da graça. Abriu o som e disse:" Prezado cliente, este trem se destina ao terminal Santa Cruz. Horário pevisto de partida: 21 horas e 35 minutos. Tempo previsto de viagem: 1 hora e 40 minutos." Quando ele terminou de falar eu lembrei que o trem era parador...Puta merda! Pra completar meu desânimo o maquinista reabriu o sistema de som e disse:" A Supervia deseja a todos um bom descanso." Ah pára mané! Como dizia vovó, é o fim da picada! O safado em vez de desejar boa noite, fez questão de lembrar que eu tava cansado! Já eram 21:35, hora de partir, quando veio o sinal sonoro :"Tuuuuuuuuuuu...". Esse é o som emitido pelo trem quando as portas vão fechar. Como sempre tem um idiota que segura a porta, esse barulho torturante se repete por volta de umas 3 vezes. Naquele dia, o idiota nem me irritou, mas mostrou uma ponta de altruísmo. Travou a porta pra permitir a entrada de um humilde catador de latas. Só que para tensão de todos os presentes, não teve força suficiente pra agüentar a porta pesada, que fechou por cima da grande sacola de latas. O pobre homem ficou dentro do trem, com a maior parte do saco presa na porta. No desespero, tentou puxar as latas pra dentro. Foi então que eu escutei um barulho metálico, que anunciava todo o seu dia de trabalho jogado nos trilhos. Ele externou sua tristeza mostrando a nós um sorriso desfalcado. Tão desfalcado que se aquelas peças entrassem em campo seria derrota por "wo". Só consegui avistar o centroavante, o ponta esquerda(esse era negão como Pelé e quase todos os craques) e o lateral direito lá atrás. Impotente, fui aos poucos me desligando da situação. Depois comprei uma Coca-Cola, dando a lata amassada ao pobre coitado, desolado no chão do trem. Foi quando notei uma rodinha de conversa, que tinha como papo minha religião, o futebol. Eles falavam do "Fra-Fru" que aconteceria no domingo seguinte. Decidi me meter na roda e dar meus pitacos, sabendo que seria minoria. Era Bruno pra lá, Obina pra cá, até que um herege desgraçado afirmou de cara limpa que o bom, mas humano zagueiro Fábio Luciano era mais zagueiro que Thiago Deus Silva!! Fui insultado por tamanha heresia. Na mesma hora resolvi me auto-excomungar daquela conversa. Caminhei em direção ao outro vagão rezando a João de Deus, clamando pelo perdão daquele infeliz. No outro vagão o clima era contrastante. Foi um impacto gostoso. A primeira coisa que escutei foi: "-Chegou em casa outra vez doidão, brigou com a preta sem razãão! Quis comer arroz doce com quiabo, botou sal na batida de limão...". Pois bem, eu tava no meio de um pagode animado, com direito a pandeiro e ganzá. Fiquei tão entretido que acabei esquecendo o desaforo rubro-negro. Saudei um vendedor de bananada vestido com a camisa do Fluminense Campeão Carioca de 2005, e no momento em que olhei pela janela vi a quadra da Mocidade. Já era pra ir embora. O pagode tava tão bom que eu nem senti o desgaste das 23 estações. Desci feliz e reflexivo ao mesmo tempo. Fiquei pensando na vida do subúrbio e só concluí uma coisa. Ela é bem diferente da bananada. Nem sempre é macia e açucarada, e certamente, pelo menos como experiência, vale muito mais que 10 centavos.

2 de ago de 2008

Vida (Encontros e desencontros)

Não amanheci bem. Não entendo porque me sinto tão perdida de mim mesma e os textos que escrevi, ontem, parecem refletir idéias de uma outra pessoa que não eu. Aprendo então que a essência é coisa que muda. É bicho solto afeiçoado à liberdade. Contudo, teria ela também suas paixões, seus vícios? Sinto falta da pessoa que eu era e agora penso incessantemente em recuperá-la. Talvez com o pleno desenvolvimento de minha personalidade eu reencontre quem eu fui, ou talvez venha a ser um novo ser, feito lagarta que finda mais uma fase de sua vida transforma-se em borboleta. É isso! Talvez seja eu uma borboleta, bela, leve e efêmera com a sobre-humana capacidade de morrer a cada dia que passa. Mas o que faço eu dessa ventura? Ser uma só é monótono, mas ser várias é um desafio que não sei se estou pronta para aceitar. Porém, o que posso além de aceitar esse silêncio pungente que grita nas minhas entranhas: vida, vida, vida!