30 de mai de 2010

Blá blá blá e reflexão

Senhoras e senhores, essa semana eu tinha em mente colocar uma poesia ou um texto sobre o cinema. Infelizmente, o meu processo criativo é muito curioso, vocês se lembram dos 90% de transpiração e 10% de inspiração? Bullshit! Eu não funciono assim, apesar de achar que a transpiração é importante, eu preciso de inspiração. E o azar é que por motivo de forças maiores os momentos em que tenho maior vontade de escrever eu não estou diante de um computador e também a atmosfera não anda muito propícia já que dois computadores aqui de casa estão fora de uso e só posso usar o do quarto dos meus pais. Gosto de escrever sozinho e com total concentração, além de precisar estar em um estado de catarse total com o texto, em que eu realmente o sinta nascendo. Não, o ambiente não me favorece, logo não tive a coragem de escrever os textos que gostaria de publicar. Porém, vos deixo aqui uma curiosa reflexão que tive há alguns dias:

"A publicidade está para a arte assim como o stand-up comedy está para o teatro e Hollywood está para o cinema."

Não, não tenho pretensão de me explicar. Está tudo escrito acima.

17 de mai de 2010

Expectativas

Acho impossível não criar expectativas. Cinema é expectativa.
As vezes somos surpreendidos; as vezes não.

Problematico é quando esperamos ser surpreendidos.

Desafiei-me um dia a não criar expectativas. Entrei de sopetão pra ver um filme do qual nunca tinha ouvido falar, mas em cujo cartaz achei, não sabia bem o que, algo de interessante.

Depois me recriminei, pois é claro que eu havia criado expectativas quanto ao cartaz... não valeu, obviamente.

Fiquei tentando outras maneiras de não criar expectativas. Fiz o seguinte teste: decidi  ver um filme, e escolhi o local e o horário por conveniência, sem saber o que estaria passado. Chegando lá eu escolheria o filme. Mas é claro que o critério de escolha do filme (no meu caso pelo genero e pelo título) também é uma expectativa. Quando leio um título e comparo com os outros, também envolve expectativas. E a escolha do lugar também influência; eu sei, por experiência, que no Estação passa um determinado tipo de filme, no Arteplex outro, no Severiano Ribeiro outro.

Comprometer-se por duas horas com alguma coisa sempre envolve esperarmos sair dessas duas horas diferentes, seja mais leves, com uma boa comédia, seja com alguma reflexão interessante etc.

Talvez não seja só no cinema...

A questão central, entretanto, é como saber o que esperamos? Se soubessemos, não seria mais uma expectativa. Nunca haveria frustração. Nem agradáveis surpresas.

2 de mai de 2010

As palavras não ditas Ou As crônicas sobre a solidão

É estranho! Todas as noite ele sai com a galera para conversar e volta com um imenso vazio no peito. Como se as conversas sugassem a sua força vital e retirassem dele parte do ser que era. Se eram conversas animadas? Sim, eram conversas bastante animadas, o que nos faz concluir que era a ele que faltava ânimo. Obviamente e disfarçadamente já não apreciava tanto a companhia dos amigos, apesar de ter por eles uma enorme estima. Sabia então que estava às portas de mais uma crise em que aflora a sua essência paradoxal, mais uma vez seria forçado a lutar uma batalha em que qualquer que seja o resultado ele perderia. Se sentia apenas triste e sozinho, a sua solidão por mais clichê que seja era extremamente acompanhada, a solidão era de dentro para fora e não de fora para dentro como a maioria das solidões. 

Na verdade seus encontros sociais estavam virando quase uma droga, viciante, não sabia ao certo se queria cortar e até eram bons enquanto ainda estava mergulhado neles, porém o efeito posterior era devastador para a sua alma. As conversas lhe pareciam divertidas, porém as conversas divertidas são repletas de lacunas, e essas lacunas pareciam estar tomando corpo. Queria dizer o mundo, gritar coisas importantes, falar sobre arte, literatura, ontologia, filosofia, mesmo sabendo que essas duas são praticamente a mesma coisa, mas não sabia como, ele infelizmente não sabe como começar uma conversa inteligente, ele mal sabe como começar uma conversa tola com uma garota na boate. E isso o entristecia, sabia ele que o seu pior adversário era si próprio: a sua eterna insatisfação diante da vida, a sua sensação constante de derrota, a sua limitação em se expressar...

Sabia que a inteligência e a cultura eram caminhos de solidão, só que ele não era tão inteligente, nem tão culto, então porque tão só? Sabia que mais dias, menos dias iria se deparar com a sua solidão, não a morte não é nem de longe o pior inimigo de um homem, pelo menos não deste. E inconsolavelmente nem para ela ele saberia o que dizer. O que converso eu com a minha solidão? Poderíamos sentar, chamar uns amigos e jogar sueca.Mas isso seria Kafkiano demais e ele prefere o realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez.
Sim, as estirpes condenadas a cem anos de solidão jamais terão uma outra chance sobre a face da terra... Queria ele viver cem anos sobre a face da terra, aprenderia mais, teria mais tempo para ir a museus, shows, teatros, mas ele tem a impressão que ele faz isso sozinho demais. Na verdade ele não é tão só, tem uma alma profunda demais, se quisesse poderia repartir a alma em pedacinhos e criar várias personalidades que lhe entretessem. Porém, isso se chama esquizofrenia e ele já tem muitos problemas.

Ele sente uma enorme pressão para ser alguém na vida. Ele já inventou nome, posto, camada social, profissão, personalidade e tudo o mais, apenas não sabe como fazer para chegar a ser esta pessoa. Na verdade, ele sente um intenso medo de que esta pessoa já exista, pois ele também não sabe ao certo o que dizer para tal pessoa.

Não e sim. Ele sabe que tem que dizer mais, muito mais do que ele expressa numa noite boêmia nas ruas do Rio de Janeiro. Só que as palavras são feitas do mesmo material etéreo que são feitos os pensamentos, e em seu egoísmo ele guarda as palavras para si mesmo. Talvez, se por um momento conseguisse criar uma fenda em seu casulo social, aí sim ele dissesse as palavras não ditas, aquelas que ficam nas entrelinhas, no interstício, no intrínseco de seu próprio ser, ele talvez fosse feliz ou talvez não fosse compreendido e tudo soasse apenas como uma epifania ou um momento de loucura...Então, é por isso que ele escreve...