17 de abr de 2010

Não tenho personalidade

Não tenho personalidade. Sou uma mistura de todas as experiências que já tive. De cada pessoa absorvo um trejeito, uma gíria, um pensamento.

Não sou insubstituível nem único. Sou um fabricante de máscaras, trabalho com fragmentos de minhas presas. Somente eu as uso. Significo para você o que eu quiser.

Não sou sempre o mesmo. Com cada indivíduo que converso travisto-me de filosofia diferente, adapto-me às circunstâncias. Sou um camaleão. Não possuo identidade própria. Adquiro facilmente a coloração do ambiente.

Ao contrário de você, todos os meus movimentos são estudados e pensados. Sim, eu me estudo a todo o momento, nos mínimos detalhes. Meu nascimento é um roubo. Os gregos até hoje procuram as máscaras que usavam para encenar suas peças. Conheço e compreendo como poucos a minha história, sei onde e quando aprendi sobre cada assunto.

Prezo pela verdade, mas sou um mentiroso. Não por desconhecer a verdade, ou dela duvidar. Tampouco vanglorio a mentira terapêutica. Pelo contrário, conheço tão bem a verdade que a acho desinteressante. Prefiro mentir para poder me enveredar pelas tuas entranhas e sugar o teu sangue. Sou sanguessuga. Um sanguessuga de idéias. Já imaginou o poder de um camaleão sanguessuga? Sim, este sou eu.

Minha busca é pelo que não sou capaz de traduzir. Portanto, não se preocupe, não lhe faço mal algum. A finalidade de minha existência depende da sua, sou daquele tipo de parasita que morre junto com seu hospedeiro.

Você já me conhece há muito tempo, mas nunca nos apresentamos. Muito prazer, me chamam Palavra. Seja bem vindo a minha morada, O Teatro.

8 de abr de 2010

Aniversário: 4 anos

É com muito orgulho que hoje completamos nosso quarto ano de blog.

Viver é o que acontece enquanto fazemos planos: da nossa idéia inicial, um espaço para que amigos se mantivessem em contato e lessem os textos uns dos outros, talvez não tenha sobrado muito. Vários passaram por aqui, mas somente eu e o Flávio permanecemos. Houve momentos de baixa, é verdade. Mas estamos aqui.

Para mim, escrever não é simples. Sou apaixonado pelo processo, apesar de ele ser doloroso. Cada um é o maior crítico de si, e muitas vezes o motivo que nos leva à escrita não é digno do papel. Para romper o silêncio, é preciso antes superá-lo.

Quatro anos depois, meu único incomodo com o formato blog é a sua a temporalidade. Os textos aqui dO Teatro tem uma intenção de serem eternos, não meros comentários de conjuntura.

Por isso, escolhi três textos bem antigos para indicar-lhes, caríssimos leitores:

Mariana, nossa sonhadora, nosso Limão Lilás foi co-fundadora dO Teatro; mas depois a vida a levou por outros caminhos; amamos muito ela, e esse texto é para mim arrebatador, volta e meia gosto de relê-lo:
Era um nó

Os bons momentos do Flávio são tantos, que confesso quase um assassino por tentar escolher. Mas na verdade tenho um veio psicopata, e escolho:
Poema a uma bela

Escolher o melhor de seus textos é como perguntar a um pai qual o filho preferido dele. Cada filho tem um gênero, e cada um é o preferido desse gênero. Meu critério aqui é histórico, escolhi o meu texto do gênero que me iniciou na literatura, a crônica:
Conto do ônibus

Por acaso, todos os textos foram publicados em 2006. Aqueles que acompanham o blog, não importa desde quando, por favor sintam-se convidados a lembrar de algum texto em particular que lhes tenha marcado de algum modo.

Um grande abraço e muito obrigado!
Vitor

4 de abr de 2010

Infestação
Ou
A vida das baratas
Ou
Se eles querem metafísica, que morram!

Nada no mundo tem amor maior a vida do que a barata. Só isso pode justificar a sua não aniquilação total perante à humanidade. A barata é para muitos um ser nojento, vil e inferior. Não minto, por muito tempo também pensei assim, só agora noto suas virtudes.

A barata é um ser engraçado, as pessoas acham ela desprezível ou são indiferentes. Nunca vi alguém defendendo-a, tipo uma ONG de salvação das baratas ou de seu habitat natural, no qual as pessoas cismam de jogar lixo ( e o mais engraçado de tudo é que ela até gosta). A barata está aqui antes de tudo para viver da nossa putrefação e zombar da nossa baixeza, mas, ela nem sabe disso. A biologia deveria ter um trato todo especial com esse animal, deveria existir uma categoria especial para ela, assim como para a sua relação com a raça humana. A barata não é um inseto, é uma zoação, uma sacanagem, um escárnio, ou seja lá como você queira chamá-la. E a sua relação com o ser humano deveria ser também classificada de forma especial, pois em termos ambientais ela não parece fazer a menor diferença, ela não come ninguém, não é comida por ninguém, logo não mudará nenhuma cadeia alimentar que nos afete, então em termos biológicos, a sua extinção nos é indiferente, assim como o contrário também é verdadeiro. O seu grande pecado é nos trazer de volta o que queremos esconder, nossos detritos e nossas fraquezas em forma de doença. E por isso, muitos querem exterminá-la, até agora sem sucesso...

É de conhecimento geral que a barata seria o único animal que resistiria à guerra atômica, mas o que mais me espanta nisso tudo é que ela não dá a mínima para isso. A barata, diferente de vários outros animais, não dá a mínima para o ser humano e para o que ele faz. Alguns dizem que ela nos teme, mentira, se temia, já perdeu o medo há muito tempo.

A barata em certos casos é quase divina. Ela é o exemplo de que o todo está na sua menor parte, a barata é um ente abstrato muito além do indivíduo, pois sabemos que onde tem uma barata, existem muitas outras.

Se Nietzsche tivesse olhado para ela teria notado um ser no auge da potência de vida. A barata não visa atingir nenhuma metafísica, não mata a sua igual por nenhuma ideologia e acima de tudo corre feito louca, por quê? Porque ama a vida!

A barata não imagina o que alcançará depois de morta. Não, ela se contenta com um pouco de açúcar e depois volta para a sua toca tranquilamente para aguardar a hora em que precisará de mais comida. Ela não reza para nenhum Deus do qual não está certo que existe, nem faz pouco caso de seu corpo, ela apenas obedece ao seu instinto de viver, amando plenamente cada minuto de sua vida sem ficar, distante, sonhando com outras maneiras de viver.

A barata ri de nós que vivemos aflitos atrás de amor, amigos, aprovação familiar... Tudo isso, em sua metafísica de barata é besteira. Ela sabe que é parte de algo bem maior e em momento nenhum se sente sozinha. A barata gargalha do fato de vivermos correndo atrás de dinheiro. Ela só corre atrás de comida e da salvação de sua vida, o resto para ela é bobagem.

A barata sabe que nossas ideias, nós mesmos destruímos. Que nossos textos, o tempo corrói. E que a filosofia e a poesia brevemente serão apenas sussurros de um tempo vão. A barata estava lá quando o primeiro símio ousou agarrar um objeto com o polegar opositor e sabe que estará lá quando o apocalipse (celeste ou humano) chegar e a espécie humana não pairar mais sobre a terra. Nesse dia a barata, ignóbil a tudo, continuará correndo livremente pela sua vida até o momento em que as paralelas se cruzarem e as estrelas virarem pó...