21 de jan. de 2011

Diluvio

- Ta quieta por que, minha filha? O gato comeu sua língua?
- Eu teria muito o que dizer, pai. Mas a água levou tudo, não importa. Agora precisamos mais dos braços do que da boca.

3 de jan. de 2011

Fugacidade (ou a ausência eterna)

Ah, o eterno desenlace.
O desenrolar de um nó, de uma fita
Eternamente atada.
Ah, o fim. É o fim.
E nada mais.
Me pergunto: o que foi feito da poesia...
Porém, há a vida que tem de ser ganha.
Mas parece que quem ganhou foi a vida.
A vida, ávida, a vida.
Só um pôr-do-sol,
Imagem onírica de minha infância
É assim que se vive a vida,
Num sonho eterno onde passarinhos
Cantam ao entardecer e galos tecem a alvorada
E ao mesmo tempo, se perde tudo isso
Trabalhando para um mundo caduco.
Caduco porque esquece. Não, não a poesia,
Porque ela está em todas as coisas
O esquecido é homem, coisas, a vida...
Um eterno sistema de retroalimentação
Sem sentido, sem fim aparente, sem objetivo.
Que serve apenas para esquecer
E quanto mais se esquece, mais se ganha.
Ninguém sabe ao certo o quê.
Mas graças a Deus há o fim, que é o fim.
Que serve apenas para terminar a poesia.
E nada mais.

16 de dez. de 2010

Fogo fátuo
















Fogo Fátuo¹

Ao andarilho solitário de lugares sombrios
Trago vida, esperança e caminho
Livrando-o naquela noite do frio
Tiro de sua alma fino espinho

Meu brilho a princípio lhe induz litígio
Mas sob luvas velhas e um capuz translúcido
Desapareço sem deixar vestígio
Assim o viajante duvida se está lúcido

E encontra paz, finalmente, na loucura
Sem saber que sou apenas fissura
Fogo de palha, frágil, finito
Alimento parco para seu ego faminto



1- Inflamação espontânea do gás resultante da decomposição de seres vivos. Ver: De onde surgem os fantasmas.

28 de out. de 2010

A Culpa é da Medicina

Disse-me ele certa vez, quando falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média:
- Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente o nosso estido de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição tem seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da Antiguidade, que tivesse que viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quando um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda evidência, toda moral, toda salvação e inocência ficam perdidas para ela. Naturalmente, isto não atinge a todos da mesma maneira.

Bem que eu queria, mas não escrevi o texto acima. Mas achei brilhante, exato e aplicável a situações demais para não compartilhar. O título fui eu quem pus. A culpa é da medicina pois foi ela que nos aumentou a expectativa de vida, fazendo com que culturas diferentes convivam na mesma sociedade.

Reverencia:
HESSE, Herman. O Lobo da Estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 [1927], p. 32.

11 de out. de 2010

Hoje

Hoje não vou falar de amor
Nem cantar minha dor

Não conversarei com as flores
Tampouco mandarei nas cores

Não estou com vontade de tentar ser alguém
Nem desejo matar ninguém

Nada no mundo vai me tirar do lugar

Hoje.


OBS: Texto de 2002.Achei-o arrumando o armário hoje...