4 de abr de 2010

Infestação
Ou
A vida das baratas
Ou
Se eles querem metafísica, que morram!

Nada no mundo tem amor maior a vida do que a barata. Só isso pode justificar a sua não aniquilação total perante à humanidade. A barata é para muitos um ser nojento, vil e inferior. Não minto, por muito tempo também pensei assim, só agora noto suas virtudes.

A barata é um ser engraçado, as pessoas acham ela desprezível ou são indiferentes. Nunca vi alguém defendendo-a, tipo uma ONG de salvação das baratas ou de seu habitat natural, no qual as pessoas cismam de jogar lixo ( e o mais engraçado de tudo é que ela até gosta). A barata está aqui antes de tudo para viver da nossa putrefação e zombar da nossa baixeza, mas, ela nem sabe disso. A biologia deveria ter um trato todo especial com esse animal, deveria existir uma categoria especial para ela, assim como para a sua relação com a raça humana. A barata não é um inseto, é uma zoação, uma sacanagem, um escárnio, ou seja lá como você queira chamá-la. E a sua relação com o ser humano deveria ser também classificada de forma especial, pois em termos ambientais ela não parece fazer a menor diferença, ela não come ninguém, não é comida por ninguém, logo não mudará nenhuma cadeia alimentar que nos afete, então em termos biológicos, a sua extinção nos é indiferente, assim como o contrário também é verdadeiro. O seu grande pecado é nos trazer de volta o que queremos esconder, nossos detritos e nossas fraquezas em forma de doença. E por isso, muitos querem exterminá-la, até agora sem sucesso...

É de conhecimento geral que a barata seria o único animal que resistiria à guerra atômica, mas o que mais me espanta nisso tudo é que ela não dá a mínima para isso. A barata, diferente de vários outros animais, não dá a mínima para o ser humano e para o que ele faz. Alguns dizem que ela nos teme, mentira, se temia, já perdeu o medo há muito tempo.

A barata em certos casos é quase divina. Ela é o exemplo de que o todo está na sua menor parte, a barata é um ente abstrato muito além do indivíduo, pois sabemos que onde tem uma barata, existem muitas outras.

Se Nietzsche tivesse olhado para ela teria notado um ser no auge da potência de vida. A barata não visa atingir nenhuma metafísica, não mata a sua igual por nenhuma ideologia e acima de tudo corre feito louca, por quê? Porque ama a vida!

A barata não imagina o que alcançará depois de morta. Não, ela se contenta com um pouco de açúcar e depois volta para a sua toca tranquilamente para aguardar a hora em que precisará de mais comida. Ela não reza para nenhum Deus do qual não está certo que existe, nem faz pouco caso de seu corpo, ela apenas obedece ao seu instinto de viver, amando plenamente cada minuto de sua vida sem ficar, distante, sonhando com outras maneiras de viver.

A barata ri de nós que vivemos aflitos atrás de amor, amigos, aprovação familiar... Tudo isso, em sua metafísica de barata é besteira. Ela sabe que é parte de algo bem maior e em momento nenhum se sente sozinha. A barata gargalha do fato de vivermos correndo atrás de dinheiro. Ela só corre atrás de comida e da salvação de sua vida, o resto para ela é bobagem.

A barata sabe que nossas ideias, nós mesmos destruímos. Que nossos textos, o tempo corrói. E que a filosofia e a poesia brevemente serão apenas sussurros de um tempo vão. A barata estava lá quando o primeiro símio ousou agarrar um objeto com o polegar opositor e sabe que estará lá quando o apocalipse (celeste ou humano) chegar e a espécie humana não pairar mais sobre a terra. Nesse dia a barata, ignóbil a tudo, continuará correndo livremente pela sua vida até o momento em que as paralelas se cruzarem e as estrelas virarem pó...

3 comentários:

Vitor disse...

Sensacional. Perfeito. Fiquei até com aquela inveja saudável!

Reparou que nos últimos tempos temos trocado de papéis? Tenho tentado me dedicar a poesia e você anda arrebatador nas crônicas...

Grande abraço!

Letícia disse...

Apesar de odias baratas, adorei o texto! Bjo Lê (irmã do Vitinho)

Adrianna Coelho disse...


Muito bom!!

E, acho, que faz um grande sentido... rsrs