26 de out de 2008

Teoria neo-clássica sobre o audiovisual

Teoria Neo-clássica sobre o audiovisual

Alguns textos afirmam que a razão da sétima arte ser tão inebriante é devido ao seu caráter onírico, ou seja, o filme como o espaço do sonho, uma espécie de escapismo em relação à realidade. Talvez, os filmes sejam realmente uma forma de fuga de um cotidiano repressor, em que impera a falta de liberdade, porém não estou muito certo se esse é realmente o motivo central da diegese* do espectador diante da tela. Em primeiro lugar, acredito que muito da relação diegética ocorre devido ao aperfeiçoamento da linguagem cinematográfica. Sim, isso é óbvio, sei, mas na maioria dos textos sobre audiovisual, isso é dito motivado pelo fato de que o desenvolvimento dessa linguagem conseguiu fazer com que o cinema tornasse ainda maior a impressão de realidade que já existia desde o “Teatro filmado”. O que na prática como conhecemos é o seguinte: com o aperfeiçoamento dos cortes e dos planos conseguimos editar ao máximo uma cena (ou várias), sem que haja a perda da sensação de realidade presente nela. Sinceramente, concordo com isso, porém, acredito que tudo o que foi mencionado anteriormente é incompleto. O caráter onírico dos filmes não explica a diegese que ocorre em documentários ou filmes dramáticos e a duplicação da realidade não esclarece o encantamento exercido por cineastas como Godard ou Woody Allen que fazem questão de nos lembrar momentaneamente que estamos em frente a um filme.

Para responder essas questões recorro a algo bem simples: acreditos que o cinema ainda funcione muito na base do “o que será que vai acontecer?”, não mais como no cinema das origens onde, é claro, tudo convergia para essa ação, tudo era em função do ato que ia acontecer e finalizar o filme, porém ainda creio que é essa curiosidade que nos prende à cadeira do cinema e nos impede de levantar no meio da exibição. Vejamos o caso de Annie Hall de Woody Allen, além da passagem em que Alvy Singer (protagonista) discute na fila do cinema e chama Mc Luhan para finalizar sua discussão, há uma outra parte em que o personagem principal está num flerte com uma personagem e o diálogo se torna extremamente culto, então embaixo aparecem legendas que na verdade não significam a tradução da conversa e sim o pensamento dos personagens. Momentos como esse servem para lembrar que estamos diante de um filme, mas não é pela quebra da diegese que o espectador deixa de assisti-lo, porque ainda há a pergunta: o que vai acontecer? Pelo contrário, isso é até incorporado ao filme e o torna mais interessante, se algo assim diferente ocorre, o leque de opções para a continuação do filme aumenta, tudo pode acontecer. Encontramos aí o grande diferencial do cinema de narrativa clássica para o cinema alternativo. No filme de narrativa clássica, quase tudo é previsível, mas mesmo assim continuamos assistindo porque há a incerteza (o que vai acontecer?), não acreditamos no óbvio enquanto ele não acontece. Os filmes fora dos padrões Hollywoodianos por sua vez podem até utilizar técnicas clássicas, mas o leque de opções do que pode acontecer na história aumenta.

Estranho o fato de se sabemos o que vai acontecer, porque tanta gente ainda prefere a narração clássica? Não tanto. Nos filmes de terror, ficamos o tempo todo com medo do que está no extracampo aparecer no campo, o campo é assim o nosso espaço de segurança, ao qual nós nos apegamos, pedimos ao personagem para não fazer “isso” ou “aquilo” para manter-nos seguro do que irá aparecer para nós, assim acreditamos ser o apego à narração clássica um certo medo do desconhecido, do diferente, tudo o que é novo assusta, prefere-se muito a segurança do que é previsível.

A linguagem cinematográfica também ajuda muito na manutenção da diegese, porém como dito não apenas pela impressão de realidade, mas pelo fato de ajudar a manter a curiosidade da audiência. Voltando ao filme “Annie Hall” existe um momento em que o personagem principal retorna ao passado, motivado por uma lembrança, à sua casa e ele assiste junto com seus amigos um almoço de sua família (não há nenhum motivo diegético que justifique ele e os amigos aparecerem na cena assistindo-a e comentando-a), tem-se um corte e logo depois ele é apresentado à família de sua namorada, conhece então o irmão dela que fantasia com o suicídio em um acidente de carro, há um corte e na cena seguinte vemos o protagonista com cara de assustado num carro dirigido pelo irmão de sua namorada. Essa seqüência que obviamente pretende causar humor é feita com vários cortes e desde o começo percebe-se que não há, por assim dizer, a vontade de fazer uma seqüência que imite a realidade como ela é, e mesmo assim prende o espectador. Logo, podemos dizer que o aperfeiçoamento da linguagem cinematográfica ajuda também na criação do efeito “o que será que vai acontecer?”. Assistimos a um produto audiovisual sempre motivados a saber o que ocorrerá na próxima cena.

Já coloquei minha opinião sobre as diferenças entre o padrão Hollywoody e o cinema alternativo, então enfatizo que ao melhor estilo “Escola de Frankfurt” acredito que a arte deve elevar o ser e isso não pode ocorre através de fórmulas e repetições do mesmo produto mascarado com pequenas diferenças, apoio a idéia de arte de vanguarda, acredito que é sua função fazer avançar o pensamento em qualquer área mesmo que seja apenas “arte pela arte”.

*Diegese = Efeito provocado pela maioria dos produtos audiovisuais que faz o expectador abstrair a sua condição de platéia de um produto ficcional. Ou seja, a impressão de realidade que os filmes, seriados, novelas etc causam no expectador.

11 comentários:

Vanessa Reis disse...

Fravitcho, confesso que estou com muuito sono e com uma baita preguiça de ler o post. No entanto, prometo que o lerei no decorrer da semana,ok? =]

Marco assim, minha presença nesse blog tão distinto =P

Fique com Deus,menino!

Boa noite!

Renan disse...

Acho bem relativo. Entendo a tua clara preferência pelo cinema alternativo(lembro bem daquelas sessões no Barra Point). Mas acho que muitas vezes a arte mais elaborada tem uma falha: não atinge o grande público de forma intensa. Nesse ponto, as fórmulas de Hollywood são eficazes. Em contrapartida, não agregam novos valores, da forma como fazem os filmes "cult". A culpa nem é das obras alternativas, mas da anti-democraticidade da sétima arte. Um filme "cult", agraciado num "Espaço Unibanco" seria provavelmente achincalhado no Madureira Shopping. E essa complexidade do audiovisual, torna esse tipo de arte até certo ponto inacessível às pessoas mais humildes. A eles chega com mais facilidade o áudio(samba, por exemplo) e o visual(futebol é um ótimo exemplo). Dessa forma, acho complexo julgar as produções. As mais vazias normalmente carregam o poder de divertir, o que a meu ver já tem alguma importância.

Vitor disse...

Alguns vários comentários.

Primeiro, concordo com o Renan. Vc comparou vinho com guaravita. Eu por acaso gosto dos dois, mas há de convir que cada um tem seu "público alvo" e seu momento adequado.

Segundo, acho a questão da técnica interessante. Mas mesmo na linguagem oral isso aparece: tem gente (como o Renan) que sabe contar bem a história e prender atenção, outras pessoas não tem essa mesma habilidade. Vou fazer algumas conjecturas. Acho que essa coisa de "diegese" poderia ter uma definição muito mais ampla, pois acontece sempre que uma história é bem contada, pode ser no teatro, uma crônica, ou até uma piada contada oralmente.

Terceiro.
"não há (...) a vontade de fazer uma seqüência que imite a realidade como ela é, e mesmo assim prende o espectador". Que espectador, cara pálida? Você!

Quarto. Defindo arte como vc definiu, hollywood pode não ser arte. E daí? Mas é cinema. Eles não querem ser arte dessa forma vanguardista mesmo. Da mesma forma, algumas pessoas dizem que funk e hip hop não é música. Um absurdo! Pode não ser arte, por não elevar seu espírito humano e blá blá blá.

Abraço!

P.S.: Interessante, o blog está virando um lugar para o nosso debate. Gosto disso!

Renan disse...

Muito bom esse debate, mas eu preferia que ele fosse mais freqüentado e de preferência comentado.

P.S: Teu comentário me fez ter vontade de tomar Guaravita.

Flávio disse...

Bem, respondendo:
Primeiro:
bem ambos são filmes, não são? Vc querem o q?Q eu compare apenas semelhantes?Eu resolvi comparar diferentes e expor as minhas idéias...Se formos nessa de que cada um tem seu estilo e q tudo eh relativo cairemos num total pós modernismo (o q por sinal eu adoro!). Mas se formos por esse viés não fará mais sentido abrir nenhum debate aki no Blog, nem emitir nenhum juízo crítico, afinal, tudo será relativo...Viveremos de poesias então...XD...crônicas tbm serão proibidas...rsrsrs...

Segundo:
Eh totalmente pertinente...eu tava com pressa de postar e não liguei para definir a questão da diegese muito bem...Acredito q ela possa sim ser considerada de forma bem mais ampla.

Terceiro:
Não entendi o comentário, não posso criticar...(explika?)

Quarto:
Olha...te digo sinceramente q eu sou um tanto quanto Frankfurtiano...Não considero Hollywoody "arte" realmente...usando a definição de arte de Adorno e Hockheimer (Eh assim?To com sono...e meu pc tah lerdo...não vou procurar o certo não!) Mas, mais do q isso...Tem uma parte do seu discurso q eu não estou certo..."Eles não querem ser arte dessa forma vanguardista mesmo"...Daih eu discordo...P/ mim eles não pretendem nem ser arte, o objetivo de Hollywoody eh vender, não ser arte...
Mas finalizando e sendo sincero:
E daí?Eles são muito bons no que fazem e eu gosto de muita coisa proveniente do cinema deles...e concordo plenamente...eles são um ótimo divertimento...

Flávio disse...

P.S: Eu disse q Hollywoody não é arte...Não que não é filme!!!Tbm acho ridículo dizer q hip hop não é música...mas daí a dizer q é arte...são outros 500...

Vitor disse...

Primeiro.
O fato de ambos serem filmes não anula o fato de que são diferentes. Vc não entendeu o meu exemplo, então. Vinho e guaravita são bebidas. Eu poderia dar o exemplo com fanta uva e vinho, que daria no mesmo. Não é relativismo. Mas é uma questão de ciência pertinente a definição de até que ponto as coisas são comparáveis. Nesse caso, não acho que filme cult seja comparável com filme comercial, pois apesar de serem ambos filmes, eles são gravados usando técnicas diferentes e visando a públicos diferentes.

Terceiro.
Aquela cena prende a sua atenção como apreciador de filmes cult. É provavel que fosse vaiado no madureira shopping, saca?

"Tem uma parte do seu discurso q eu não estou certo..."Eles não querem ser arte dessa forma vanguardista mesmo"...Daih eu discordo...P/ mim eles não pretendem nem ser arte, o objetivo de Hollywoody eh vender, não ser arte..."
Vc repetiu exatamente o que eu falei. Definindo arte como vc quer, eles de fato não querem ser arte mesmo. Agora se vc tentar rever o seu conceito de arte, e pensar em alguma coisa menos filosófica, como a técnica de uma imagem bonita, de efeitos especiais, de como fazer aquelas cenas de ação memoráveis, aí eu acho que em alguma medida Hollywood é arte, sim! A definição de o que é arte é um debate homérico. Gosto de sua etimologia, que é muito mais ligada a técnica e que deu as palavras artífice, artificio, artesão etc.


Sobre a falta de público. Eu tentei bastante, mas as pessoas tem outras prioridades. Eu sinceramente não faço muita questão, mas posso apoiar uma nova investida em publicidade.

abraços,
Vitor

Vitor disse...

Só para constar. Definir arte como vc o fez é quase como uma soberba intelectual, sabe? Que menospreza os outros... por isso que não gosto.

Mas as definições em geral são temas em que cabe o teu relativismo, pq são as categorias de suporte para a análise formal. Como eu já escrevi naquele "Coisas que aprendi nos últimos 20 anos", definições são mais importantes que teorias.

Flávio disse...

1º- Não acho que um filme cult seja feito pensando em apenas um público, não acredito que o receptor intervenha num filme cult, portanto dizer q ele eh feito apenas p/ um público específico é um viés preconceituoso e elitista. Assim como discordo q o filme de Hollywoody seja feito apenas para um público, ele usa sim métodos que vão agradar certas pessoas, mas ele está lá p/ ser visto por qualquer um, essa definição de q cada produto tem seu público certo é algo q não me agrada, eh de um determinismo desnecessário.

3- Uma prova de que isso não corresponde à vida real: minha mãe exibiu Annie Hall na escola pública q ela trabalha e bastante gente gostou (eh claro não todos), assim como a maioria do pessoal da minha turma da UFRJ não gosta de Godard...Não há um público certo pela classificação de renda e talz...Num eh o fato de ser exibido no Madureira Shopping q não vai agradar, pode a priori não ser interessante, mas pode sim agradar...
E acho que a sua crítica não procede pois eu estava enfocando o fator técnica...não é o fato da técnica romper a diegese que faz do filme uma porcaria entende???O espectador pode vaiar o conjunto da obra, mas esse elemento sozinho não acredito que faça tanta diferença, aliás essa é a principal teoria do artigo, e ninguém ligou p/ ela...XD...
E contra determinismos, lembre que quando o teatro municipal foi aberto às camadas populares aquilo lotou contra todas as expectativas...

Ah, e quanto a minha definição de arte, Sim...ela eh elitista, sim...isso sempre foi óbvio, é uma das mais certas críticas feitas à escola de Frankfurt, mas perceba que ela não critica quem usufrui do produto da indústria cultural, ou quem o faz...E sim o produto, é contra o produto baseado em fórmulas, contra a domesticação do pensamento, não creio que arte esteja ligada a dinheiro, ou elitismo, acho que muitas coisas simples fazem avançar o pensamento, Ex: tirinhas, revistas em quadrinhos e etc...
Não sou tão radical quanto os autores que eu citei...

Eh isso...chama o renan p/ a discussão, e realmente teve uma parte das coisas q vc disse q eu não tinha lido direito...e repeti mesmo...

Flávio disse...

Ah e uma ourta coisa...
Existem filmes cults que tem toda uma produção popular: "Zé do Caixão". E lembre-se de "Closer", um filme hollywoodiano, com atores hollywoodianos que foi aclamado pela crítica e por boa parte do público (tah teve muita gente q não gostou!)...Portanto que não creio q exista essa rigidez de raciocínio entende?Não há uma essência cult, ou popular nos filmes que deslegitima a minha comparação!!!

Laura disse...

Eba, vou me jogar nessa bagunça! *se joga*

Bom, é complexo resumir em poucas palavras uma discussão que se estende desde que o cinema é cinema. Mas vamos tentar.
Começo com uma pergunta: qual o problema de Hollywood?
Ok, são vários. Dá pra passar dias aqui enumerando. Mas convenhamos: dá dinheiro. E principalmente, dá público. Alguma coisa de bom tem que ter, pra uma "fórmula" durar tanto tempo com o mesmo vigor.
Quando falamos de Hollywood, estamos falando, basicamente, de filmes "redondinhos", que não deixam muita margem pra dúvidas, construídos a partir de uma técnica clássica de transparência e fluidez, bem como ilusionismo.
Isso é totalmente independente do tema que se trabalha. Você pode fazer um filme altamente político que seja clássico-narrativo. Ou você pode ter um filme romântico água com açúcar.
O cinema alternativo acaba caracterizado por ser mais engajado, mas a diferença principal, como diz Deleuze, é uma questão de linguagem, de técnica. O problema é que as pessoas conceituam pela generalização.
Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder é clássico-narrativo e um dos filmes mais geniais de toda a história do cinema. É um filme hollywoodiano que critica a própria hollywood. Por que não?
Sei lá... acho que já me perdi no que eu queria dizer.
No fundo, eu gosto mesmo é da diversidade. Que venha Hollywood, que venha Rosselini, que venha Truffaut, que venha a Pornochanchada.