16 de ago de 2008

Era uma sexta-feira à noite, e mais uma vez a semana se encerrava da mesma forma. Parei na Presidente Vargas, olhei pro céu estrelado e com uma lua linda, que me fez lamentar pelo dia de sol perdido dentro de uma sala de aula explicando a tal da análise combinatória que tanto nos frustra. Frustra porque os alunos em geral não correspondem. Por outro lado, fiquei feliz ao lembrar que dentro de algumas horas nasceria um belo sábado com sinais de que daria praia. Parei na Central pra comer um salgadinho massudo com um aguado refresco de caju. Já eram 21:31, então tive que me apressar pra não perder o trem que sairia 4 minutos mais tarde, sob a pena de ter que esperar mais meia hora. Fui a passos largos como de costume, em direção à plataforma 6 linha F. Já não tinha mais lugar vago pra sentar então fiquei de pé, me segurando em uma das várias chupetas livres do vagão. O maquinista então resolveu dar o ar da graça. Abriu o som e disse:" Prezado cliente, este trem se destina ao terminal Santa Cruz. Horário pevisto de partida: 21 horas e 35 minutos. Tempo previsto de viagem: 1 hora e 40 minutos." Quando ele terminou de falar eu lembrei que o trem era parador...Puta merda! Pra completar meu desânimo o maquinista reabriu o sistema de som e disse:" A Supervia deseja a todos um bom descanso." Ah pára mané! Como dizia vovó, é o fim da picada! O safado em vez de desejar boa noite, fez questão de lembrar que eu tava cansado! Já eram 21:35, hora de partir, quando veio o sinal sonoro :"Tuuuuuuuuuuu...". Esse é o som emitido pelo trem quando as portas vão fechar. Como sempre tem um idiota que segura a porta, esse barulho torturante se repete por volta de umas 3 vezes. Naquele dia, o idiota nem me irritou, mas mostrou uma ponta de altruísmo. Travou a porta pra permitir a entrada de um humilde catador de latas. Só que para tensão de todos os presentes, não teve força suficiente pra agüentar a porta pesada, que fechou por cima da grande sacola de latas. O pobre homem ficou dentro do trem, com a maior parte do saco presa na porta. No desespero, tentou puxar as latas pra dentro. Foi então que eu escutei um barulho metálico, que anunciava todo o seu dia de trabalho jogado nos trilhos. Ele externou sua tristeza mostrando a nós um sorriso desfalcado. Tão desfalcado que se aquelas peças entrassem em campo seria derrota por "wo". Só consegui avistar o centroavante, o ponta esquerda(esse era negão como Pelé e quase todos os craques) e o lateral direito lá atrás. Impotente, fui aos poucos me desligando da situação. Depois comprei uma Coca-Cola, dando a lata amassada ao pobre coitado, desolado no chão do trem. Foi quando notei uma rodinha de conversa, que tinha como papo minha religião, o futebol. Eles falavam do "Fra-Fru" que aconteceria no domingo seguinte. Decidi me meter na roda e dar meus pitacos, sabendo que seria minoria. Era Bruno pra lá, Obina pra cá, até que um herege desgraçado afirmou de cara limpa que o bom, mas humano zagueiro Fábio Luciano era mais zagueiro que Thiago Deus Silva!! Fui insultado por tamanha heresia. Na mesma hora resolvi me auto-excomungar daquela conversa. Caminhei em direção ao outro vagão rezando a João de Deus, clamando pelo perdão daquele infeliz. No outro vagão o clima era contrastante. Foi um impacto gostoso. A primeira coisa que escutei foi: "-Chegou em casa outra vez doidão, brigou com a preta sem razãão! Quis comer arroz doce com quiabo, botou sal na batida de limão...". Pois bem, eu tava no meio de um pagode animado, com direito a pandeiro e ganzá. Fiquei tão entretido que acabei esquecendo o desaforo rubro-negro. Saudei um vendedor de bananada vestido com a camisa do Fluminense Campeão Carioca de 2005, e no momento em que olhei pela janela vi a quadra da Mocidade. Já era pra ir embora. O pagode tava tão bom que eu nem senti o desgaste das 23 estações. Desci feliz e reflexivo ao mesmo tempo. Fiquei pensando na vida do subúrbio e só concluí uma coisa. Ela é bem diferente da bananada. Nem sempre é macia e açucarada, e certamente, pelo menos como experiência, vale muito mais que 10 centavos.

13 comentários:

Vitor disse...

Perder um dia de trabalho pode ser tudo menos doce. Acho que para nós termos alguma leve idéia do que é isso, basta imaginar se o word não salvasse sozinho nossos trabalhos de tempos em tempos e ocorresse um pico de luz. E pensar que disso depende comer amanhã.

Não ouso dizer que a vida no súbirbio é mais feliz, como mtos dizem. Principalmente quando faltam os elementos mais básicos de sobrevivência. Mas isso me faz pensar como eles são fortes, e nós, classe média, fracos.

Acho que se enquadra mais na definição de rapadura: é doce mas não é mole não!

(alo torcida do Flamengo)
Aquele abraço!

Tati disse...

Oi meu lindo!!!
Adorei a narrativa...
Não sei explicar, mas toda vez q leio um texto seu vou ficando sempre mais envolvida...
Mil bjos e continue escrevendo assim!

pedro lima disse...

otimo texto renan,ate que como escritor voce eh um bom monitor de matematica
hueheuheuheuhueheueh
Muito bom parabens
abraço
Saudações rubro negras e o mfaboi eh melhor que op thiago,nao vejo nenhuma heresia...hehe

Mari disse...

Pois eh Renanzitoo... Vo t q confessar q seu texto me fez chorar!! Td bem q vindo d mim n eh novidad neh!?rsrs.. Eu nem choro quase!!!rs Fiquei mt triste c a historia do catador de latas q teve seu dia d trabalho perdido no caos q eh o trem p santa cruz.. tadinho kra!!
Mas trem eh o tipo d transport q sempre rende historias. Outro dia eu peguei o trem as 6:23 da manha d 1 segunda chuvosa, mt puta da minha vida pq jah tava no meu limite d 25% d faltas dessa materia infeliz q eh a d segunda d manha. Chegando na vila militar, a luz da supervia simplesmente acabou!! O trem paro, td mundo teve q descer, enfim..foi aqle caos típico..andar pelos trilhos, ter q pular d 1 trem pro outro..bla bla.. mas nesse dia eu ouvi uma frase d 1 kra q axo q nunk vo esqcer.. "Pow, eu só qria ser pobre por 1 dia, pq tds os dias tah foda!!"

Bjaum qridooo!!!

Thomás disse...

Meu caro amigo!!

Primeiramente qru externar a minha felicidade!!vc sabe pq!!rs

e agora vamos ao texto!!
esse texto retrata completamente as viagens de trem..todas com mtas historias..diferentemente do metro..com todo akele marasmo da zona sul..isso q eh vida minha gente!!ver esse povo trabalhador..que sua o ultimo suor da semana nos transportes coletivos desse rio de janeiro!!

pobre coitado do catador de latas!!mas nem por isso ele desistiu..e akela velha frase eh,em parte, correta.."eu sou brasileiro,e nunca desisto"..porem deveria ser.."eu sou pobre e trabalhador,e nunca desisto e nuca desistirei"!!
eh tudo mtu dificil..e na sexta-feira..as 22 hr..lah está a classe mais trabalhadora desse brasil se divertindo no pagode!!

bem..vivo desde criança nos trens do rio!!
meu falecido avô comprava dezenas de biscoitos globo pra mim!!eu deitava e rolava!!huahauahuahua .

tah cada vez melhor escrevendo hein!!
abraçao

michele disse...

Mais uma vez adorei seu texto e viajei,lembrei da conversa que tivemos há algumas semanas sobre a minha fobia de trem e ao ler seu texto,fiquei imaginando o quanto seria péssimo se eu estivesse lá...mas se cada vez que eu entrasse num vagão de trem estivessem tocando Zeca Pagodinho até que eu iria gostar.rsrs
A verdade é que todos nós teríamos uma boa história pra contar das nossas idas e vindas nos vagões dos trens do Rio de Janeiro...Engraçadas,tristes ou até mesmo inacreditáveis...a única coisa que eu gosto do tem é isso,as histórias que depois eu vou ter pra contar.A última minha não foi nada engraçada,eu quase fui esmagada por pessoas que tentavam desesperadamente entrar no trem depois de um longo dia de trabalho,doidas pra conseguir um lugar pra sentar...quando dei por mim eu tava dentro do trem parada esperando por alguma calmaria daquela multidão e com meus braços vermelhos de tanto que me empurraram...Nossa é uma verdadeira aventura!!Haja fôlegooo!!

Mariana disse...

só posso dizer uma coisa: fantástico!

Flávio disse...

Seus textos são de uma leveza impressionante...Fiquei triste pelo catador de latas...nossa...meu coração partiria se eu tivesse lá...
Bem...depois eu comento melhor seu texto que agora eu to com sono!

Vitor disse...

O Flávio é um procrastinador safado! Sempre dá uma desculpa qualquer, promete comentar melhor depois e nunca cumpre...

Flávio disse...

Mentiraaa!!!No último texto seu q eu prometi!Eu sumpri tah?XP!!!

Fabiano disse...

Diante de uma situação desagradável, conseguir encontrar uma porta, uma brecha que dê acesso a um novo ambiente (leve, descontraído, agradável) é um dom.
E o mais curioso é que a tal porta está, muitas vezes, tão perto e, mesmo assim, não percebemos. Perde-se, então, uma oportunidade de desfrutar o mais puro e simples prazer: viver. Mas uma vida animada, alegre, assim como uma escola de samba. Ah! ... de preferência a Vila Isabel!!
Mais um bom texto de um bom observador da realidade, que consegue extrair lirismo do cotidiano, do popular.

Fernando Flores disse...

E ai Renan, adorei o texto!!!!
lendo sua narrativa me transportei para o famigerado milhocão noturno rssss, dando sonoras gargalhadas me senti balançar naquele vagão pouco iluminado, aproximadamente 50minutos, procurando alguma coisa que me fizesse ficar entretido e poder esquecer o cansaço e a ansiedade para chegar ao lar doce lar.
compartilhei, como todos, a angustia do catador de latas que ao perder seu dia de trabalho, como bom brasileiro e apesar de todo desânimo,teve forças para dar um sorriso e seguir adiante, para quem sabe retornar no dia seguinte e dar prosseguimento ao seu ritual diário de catar latas para o seu sustento.
parabéns!!!!!

igor disse...

Pra flamenguista, Obina só se compara a Pelé, porque Eto'o já ficou pra trás.

E acho que as bananadas são subestimadas, os vendedores de hoje quase não aparecem mais com bananadas pra vender.