3 de jun de 2010

Eu vos desafio!

Ou
Regras não são feitas para serem quebradas!

Sim...vos digo que regras, ao contrário do que diz uma frase popular, não são feitas para serem quebradas. Quando inteligente e feitas com real boa vontade, elas têm uma finalidade importante, seja ela social, ética etc. Não, elas não são feitas para serem quebradas, mas sim superadas! Veja, o que vos digo é diferente, as regras têm uma finalidade, porém se elas não server mais a essa finalidade ou conhece-se um outro jeito mais eficaz de se alcançar a finalidade pretendida, sim, devemos ignorá-las! Por que estou dizendo isso? Porque hoje eu vou infringir uma das regras do nosso Blog, mas com a melhor das intenções: a tentativa de gerar reflexões profundas.

Kafka foi um gênio. E, talvez, nesse conto que vos transcrevo está resumida a sua obra e a sua genialidade. Reflitam sobre. E o desafio está aberto, quem chegará mais perto da verdade? Alguém ousa me explicar esse conto?

In Franz Kafka, O processo. São Paulo, Brasiliense, 1995. 6. ed., p. 230-32.

[...] Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. "É possível", diz o porteiro, "mas agora não". Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se posta ao lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta.

Quando nota isso, o porteiro ri e diz: "Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro", O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se havia equipado bem para a viagem, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: "Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa". Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. "O que é que você ainda quer saber?", pergunta o porteiro, "você é insaciável." "Todos aspiram à lei" diz o homem, "como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?" O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: "Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a".

7 comentários:

Lilian disse...

quebrar regras coisa dificil em tempos onde tudo e tao artificial e descartavel,algo que se aplica a poucas pessoas,concordo com supera-las porque sem elas nao haveria ordem,vc como sempre questionador e inconfundivel individuo complexo,ms profundamente inteligente,vc e desafiador como suas palavras,adorei ler seu texto,beijos lily.

Flávio disse...

Ok! Obrigado Lily...Mas não deixem se influenciar o que comentei antes não tem nada a ver com o texto. Foi apenas um comentário explicando o fato de eu estar postando um texto que não é de minha autoria. Então o comentário anterior não se envolve com o texto. Ou será que se envolve?
Bjus!!!

Mylana Gama disse...

Creio que o texto mostra o receio do homem quando está diante de uma mudança... todos querem mudar algo mas para cada indivíduo há um caminho singular e com suas dificuldades gradientes, que só pode ser percorrido com uma decisão além do que se esperaria em uma situação trivial.
Vejo a questão da lei como um exemplo forte e significativo disso.
Bom, foi o que apurei lendo agora...
daqui a alguns meses devo entender de forma diferente.
Beijos!

Geraldo Brito (Dado) disse...

Kafka é um dos meus escritores favoritos.
Saudações e parabéns pelo blog!

Léia Lima disse...

Como disse já li 'O Processo', é ótimo...nunca me esqueci daquele ambiente burocrático. E lembrei agora dessa passagem e que fiquei pensativa ao ler. Acho que tudo se resume as últimas linhas.
"Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a".
Interpreto como: Ninguém entra na lei, e os poucos que querem não conseguem por causa das tentações, ou mesmo - relevantemente -por força das circunstâncias.
Haha. Um olhar.

Vitor disse...

Confesso que estudei essa passagem do Kafka na faculdade de direito e ela me é impenetrável (como a lei para o campones). Um texto que escrevi a muito tempo (Lá vem eles), era inspirado livremente nele, mas acho que não cheguei nem perto de uma explicação.

Para mim, a lei neste caso, representa o justo absoluto, o que seria um corolário da verdade absoluta. Já tracei uma vez um paralelo do porteiro às correntes da caverna do Platão.

Filosoficamente, não acho, entretanto, que a lei seja isso tudo não. Gosto mais de uma análise mais sociológica - a lei é uma criatura de homens para homens.

Enfim, eu meio que cansei de divagar sobre esse texto. Como já disse, ele para mim é intransponível, e prefiro não ter o mesmo fim do velho camponês.

abraços

Roberto disse...

[06/12/10 21:33:44 ] Roberto - Muricy é o Técnico dos EUA? : qual o desafio?
[06/12/10 21:34:44 ] Flávio Vinícius --> Barra Shopping amanhã! Alguém acompanha? Trocar idéias... : Interpretar o texto de Kafka...que você leu...não leu
[06/12/10 21:34:44 ] Flávio Vinícius --> Barra Shopping amanhã! Alguém acompanha? Trocar idéias... : ?
[06/12/10 21:34:55 ] Roberto - Muricy é o Técnico dos EUA? : li
[06/12/10 21:35:09 ] Flávio Vinícius --> Barra Shopping amanhã! Alguém acompanha? Trocar idéias... : Então...interprete, o q acha dele...
[06/12/10 21:35:11 ] Roberto - Muricy é o Técnico dos EUA? : mas q desafio eh esse
[06/12/10 21:35:21 ] Roberto - Muricy é o Técnico dos EUA? : cada um interpreta do jeito q quer
[06/12/10 21:35:36 ] Flávio Vinícius --> Barra Shopping amanhã! Alguém acompanha? Trocar idéias... : : ) Ok...então responda isso...