5 de set de 2009

Sobre o oeste e o leste

Sobre o oeste e o leste

Era uma vez dois amigos de longa data que conversavam no mensageiro instantâneo sobre as impressões dela sobre a Europa. Ela estava morando na França havia cerca de 5 meses, viajara por alguns países europeus, tanto do oeste quanto do leste. Segue um fragmento do que conversaram:

(...)
Ela:
- O pessoal do Leste Europeu é muito mais caloroso do que o povo aqui da França e os do oeste em geral; tanto meninas quanto meninos.
Ele:
- Engraçado isso, não? A imagem do regime socialista é de que as pessoas são frias que o mundo é frio, pois tudo é igual. Mas por outro lado você tem a impressão de que essas pessoas são mais calorosas e simpáticas que os europeus. Será que ao menos os europeus do Oeste são simpáticos entre eles mesmos?
Ela:
- Mais do que com os estrangeiros, com certeza. Mas é o jeito deles mesmo, são frios. Em minha opinião de futura socióloga, essa “calorosidade” dos europeus do Leste se deve justamente, numa contraposição, à frieza do regime socialista.
Ele:
- Talvez não seja exatamente uma contraposição, porque num regime comunista as pessoas talvez sejam mais solidárias; em oposição ao regime capitalista que preza pela competição, por que cada um seja independente do outro.
Ela:
- Não sei se nossas posições são complementares ou opostas. Eu disse que eles são mais calorosos em oposição à frieza e dureza do regime; você disse que eles são calorosos por causa de uma suposta maior solidariedade do regime comunista. Se tomarmos o regime comunista de dois pontos de vista ou ângulos diferentes, nossas visões se complementam; se tomamos o regime comunista globalmente, somos opostos necessariamente.
Ele:
- Eu acho que você tem sim um ponto. Mas deixe-me ir adiante. No comunismo, as formas de expressão são sempre tidas como frias, sem sal nem açúcar. Como se a arte tivesse morrido. Isso se expressa na arquitetura (acabo de ler a descrição muito boa de um amigo que está em Hamburgo e foi visitar Berlim, mostrando os contrastes da cidade dividida - parece que o muro não caiu, ou ainda está por cair). Mas acho que a ausência de alma na arte é uma conseqüência de se viver num regime em que há muito mais solidariedade. É como a arte clichê do casal apaixonado, que normalmente é ruim para quem esta de fora, se comparada com a arte produzida em momentos de tristeza, de separação, de dúvida, que aos olhos externos parece carregada da alma do artista. Como vivemos num mundo competitivo e estamos em alguma medida sempre sozinhos, competindo, canalizamos nossa alma não para a relação com os outros, mas para o papel e para a arte de modo geral. Falo de uma reificação da expressão dos sentimentos. Como não conseguimos nos expressar na relação com os outros, canalizamos tudo para a os objetos, para as coisas.
Ela:
- Concordo com a parte em que você fala sobre o capitalismo, mas acho que para explicá-la você usou uma visão idealizada de como foi o regime comunista, com a qual eu não concordo.
- É verdade. Então acho que chegamos, de alguma maneira, num acordo?
- Jamais!
(risos)

(...)

4 comentários:

Flávio disse...

Belo diálogo. Mas, ele me deixa melancólico. Não sei se para você e Dan há sempre momentos como esses, mas faz tempo que não converso nada mais interessante, a arte da função fática triunfa no meu MSN. Há raros brilhos...

Carol disse...

Vitor! Quanto tempo não nos falamos!

Engraçado ler esse texto, porque eu tive uma conversa sobre o mesmo assunto essa semana. Tenho uma amiga que acaba de voltar da França e viajou pelo Leste Europeu, e disse a mesma coisa, que o povo de lá é beeeem mais agradável que o do oeste. Uma outra amiga, que também voltou de lá, disse que o povo da França é "gente sem amor no coração". rsrs.

Portugueses também não são simpáticos...

Elas me fizeram querer aproveitar mais o Brasil. :P

Beijos!

érica disse...

Esses papos com o Vitor são sempre um mergulho no mistério das coisas. :p
Invejinha da Danusa, que bateu perna pelo velho continente...

Gustavo Pimentel disse...

Ha de se recordar que os povos do leste e oeste tem origens etnicas distintas, o que antecede qq opcao por regime de producao. Isso poderia em parte explicar as contradicoes no embate de vcs.