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16 de dez. de 2010

Fogo fátuo
















Fogo Fátuo¹

Ao andarilho solitário de lugares sombrios
Trago vida, esperança e caminho
Livrando-o naquela noite do frio
Tiro de sua alma fino espinho

Meu brilho a princípio lhe induz litígio
Mas sob luvas velhas e um capuz translúcido
Desapareço sem deixar vestígio
Assim o viajante duvida se está lúcido

E encontra paz, finalmente, na loucura
Sem saber que sou apenas fissura
Fogo de palha, frágil, finito
Alimento parco para seu ego faminto



1- Inflamação espontânea do gás resultante da decomposição de seres vivos. Ver: De onde surgem os fantasmas.

28 de out. de 2010

A Culpa é da Medicina

Disse-me ele certa vez, quando falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média:
- Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente o nosso estido de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição tem seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da Antiguidade, que tivesse que viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quando um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda evidência, toda moral, toda salvação e inocência ficam perdidas para ela. Naturalmente, isto não atinge a todos da mesma maneira.

Bem que eu queria, mas não escrevi o texto acima. Mas achei brilhante, exato e aplicável a situações demais para não compartilhar. O título fui eu quem pus. A culpa é da medicina pois foi ela que nos aumentou a expectativa de vida, fazendo com que culturas diferentes convivam na mesma sociedade.

Reverencia:
HESSE, Herman. O Lobo da Estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 [1927], p. 32.

11 de out. de 2010

Hoje

Hoje não vou falar de amor
Nem cantar minha dor

Não conversarei com as flores
Tampouco mandarei nas cores

Não estou com vontade de tentar ser alguém
Nem desejo matar ninguém

Nada no mundo vai me tirar do lugar

Hoje.


OBS: Texto de 2002.Achei-o arrumando o armário hoje...

27 de set. de 2010

Ironia

Sofia chegou em casa com aquele sorriso irônico no rosto, cheio de malícia. Seu sexto sentido de pai sabia que dali viria uma adolescencia.

- Pai, hoje a gente estudou em História que o Tiririca tem o recorde de votos para Deputado no Brasil. Não é aquele que você tem disco?

(silêncio constrangedor)

- Pois é, minha filha. Foi. Mas eu não votei nele não.
- Eu te deserdaria se você tivesse votado nele, disse Sofia, divertindo-se com a provocação

Ele pensou em explicar que nem se quisesse poderia votar nele, pois ele fora candidato por São Paulo. Preferiu uma rota alternativa:

- A situação política na época era muito diferente de hoje. Havia um descontentamento geral com os políticos. Muita gente achou que votar nele era uma forma de protesto.
- Se o descontentamento era geral, por que as pessoas não se mobilizavam e se candidatavam? Votar num palhaço para protestar, que pessoas burras!

Titubeou. Não conseguia colocar em palavras o imobilismo e o desamimo que dominavam aqueles tempos de sua juventude.

- Você esta mudando de assunto, protestou ela. Eu queria saber o que faz o disco dele na nossa prateleira, bem depois do The Doors e do Titas?
- Eu pedi para sua avó comprar este disco quando criança, lá para uns 8 anos. Era moda na época, anos 1990. O disco ficou na minha coleção, hoje até vale uma grana como raridade bizarra. Nunca mais escutei, diferente de você que tem até hoje músicas da Isabela Belinha no seu iAll.

(silêncio constrangedor)

- Ao menos eu não tive que aturar o Tiririca fazendo discurso em Brasília. Ele não era analfabeto?
- Acredite, minha filha, dos males o menor.

14 de set. de 2010

O erro de Eva

Você inventaria a internet
se soubesse que ela multiplicaria a pornografia infantil?

Você inventaria computadores
se soubesse que eles guiariam mísseis?

Você inventaria a energia nuclear
se Hiroshima e Nagasaki fosse inevitável?

Você inventaria o adubo
se soubesse que o desperdício de comida mataria milhares por inanição?

Você inventaria a eletricidade
sabendo que ela seria o método mais eficiente de tortura?

Você inventaria as caravelas
Se pudesse prever o genocídio de Maias, Astecas, Incas e outros povos sem nome?

Você inventaria a democracia
sabendo o que seria o Brasil do século XXI?

Você inventaria a forja
se soubesse que espadas seriam preferíveis a arados?

Você inventaria a roda
se soubesse que os carros matariam mais do que guerras?

Eu não.

Ignorância é uma benção.

31 de ago. de 2010

Saudade

Eu estava com saudade desse lugar.

Saudade de ser livre. De escrever o que me desse na telha.

Saudade das palavras soltas, que não desejam aprovação, que não desejam convencimento de outrém, que não desejam subversão. Que não desejam ocultar, nem desviar o olhar do essencial.

O bom filho a casa torna; ao lugar que ele mesmo criou.

Aqui é onde posso brincar de Deus, ser pai e filho ao mesmo tempo.

16 de jul. de 2010

No meio (2)

Eu e o Flávio nos inscrevemos no concurso de crônicas da Blooks
Não fomos finalistas, infelizmente. Mas gostaria de compartilhar aqui a crônica que enviamos para lá. Ela já apareceu aqui nO Teatro, mas em dois posts separados (No meio e Direito de resposta). Nós juntamos os dois textos (o segundo foi escrito como continuação do primeiro) e melhoramos algumas partes (ler um texto antigo sem querer tentar melhorar um pouquinho ele é quase impossível)

No Meio

Flávio Vinícius Ferreira de Araújo e Vitor Paiva Pimentel

(...)
- Então você diz porque sim?
- Sim!
- Resumes tudo numa afirmação?
- Não...
- Então negas e
Consideras uma devoção!
- Eu!?
- Meu Deus!
- O quê !?
- Cinismo...
- Não. Abismo. Que se esconde.
- Onde?
- Em frente às favelas, de um povo que reza, e também se confessa.
Que pensa que é gente, mas gente não sente.
Que acha que é, mas só interpreta
o que dizem que Deus quer
mas este mesmo os despreza.
(Pausa)
Me diz isso como algo que se entende
e ainda por cima não se arrepende!?
Você considera tudo sua ciência...
Sua social ciência.
E assim se esquece
dos fatos de antes, da vida de antes,
e acima de tudo, da Divina Providência.
- Não seja sonhador! Dor, dores deveras.
E você me fala das vidas como se fossem primaveras?
- Ah! Quem me dera ser sonhador e não enxergar a dor
Fruto que me dilacera,
E que ao sorrir diz
que não sou apenas esta tão frágil... matéria.
- Inconseqüente!
- Mentes!
- Direito à vida!
- Que viva!
- Adquirida!
- Admitida!
- Mentira!
- Verdade!
- Pedaço!
- Eternidade!
- Efêmera!
- Quimera!
- Que me dilacera se eu não tentar.
Encontrar por meios próprios – seja a social ciência, seja por completa incompetência – a verdadeira mentira.
Que se atira do sétimo andar. Cai. E, para ti*, se esconde, longe do nosso alcance, no céu.
- Porque não tiras o véu? Cegas a ti mesmo por amor a que? O Romântico aqui sou eu...
- Cego-me por medo, confesso. E não me arrependo.
- Cinismo!
- Não, abismo... que se revela. Que me revela. Como apenas mais um do povo.
Povo que talvez reza, talvez calcula, talvez não procura, mas nunca se entrega. Inabalável em sua fé.
- Fé em que?
- Não importa. A fé se basta, intransitiva.
- Divina Providência?
- Ou seja lá em que barco queiras me colocar. Posso colocá-lo em qualquer barco também!
Mas, de um jeito ou de outro, estamos juntos! Estivemos e estaremos! Juntos!
- Para a eternidade...
- Efêmera!
(...)

*Parati é o nome de uma cidade fluminense que tem seu nome em homenagem a um Peixe Branco, seu significado em Tupi (or not Tupi?). É a cidade que cedia a Festa Libertária Internacional.

23 de jun. de 2010

Causa e efeito

Causa e efeito

O Coração é o simbolo do amor. As meninas aprendem logo cedo a cultivá-lo. Margens de cadernos são talhadas de sua representação simplificada. Na web, rapidinho descobriram como desenhá-lo com letras, nada pode impedir de expressar os sentimentos por meio desse simbolo universal S2

Já o Cérebro, coitado, é estigmatizado como frio, calculista, o lado racional. Aquele sujeito malvado, que não tem sentimentos. Os psicopatas são puro cérebro, pessoas sem coração.

Os médicos que me corrijam se eu estiver errado, mas pelos meus parcos conhecimentos de biologia, esta dualidade coração/cérebro é um grande equivoco, e ainda uma tremenda injustiça com o pobre cérebro.

No complexo de reações que é sentir amor, o coração é um mero coadjuvante; ele só bate mais forte porque o cérebro (e normalmente o corpo todo) precisa de mais sangue nesses horas, sendo que quem dispara o coração é a adrenalina, e quem manda as adrenóides produzirem mais adrenalida é? Duh, o cérebro. Aliás, pelo mesmo motivo o coração bate mais rápido quando estamos com medo e com raiva. A diferença dos sentimentos está nos outros hormônios (endorfina, por exemplo) que o cérebro comanda a produção. O coração bater mais forte é um mero detalhe, que aliás ocorre em outras situações. É o cérebro que ama.

Esse senso comum é uma clara confusão de causa por efeito, é tão absurdo quando pensar que o interruptor mudou de posição porque a lampada acendeu.

Tal dualidade, concebida sobre uma falácia evidente, serve apenas para criar uma falsa dicotomia entre razão e emoção, como se estivessem ligados fisicamente a órgãos diferentes do nosso corpo. Não existe razão sem emoção, nem emoção sem razão. Às vezes conseguimos agir mais em função de um ou de outro, mas por motivos totalmente alheios a nossa vontade.

17 de mai. de 2010

Expectativas

Acho impossível não criar expectativas. Cinema é expectativa.
As vezes somos surpreendidos; as vezes não.

Problematico é quando esperamos ser surpreendidos.

Desafiei-me um dia a não criar expectativas. Entrei de sopetão pra ver um filme do qual nunca tinha ouvido falar, mas em cujo cartaz achei, não sabia bem o que, algo de interessante.

Depois me recriminei, pois é claro que eu havia criado expectativas quanto ao cartaz... não valeu, obviamente.

Fiquei tentando outras maneiras de não criar expectativas. Fiz o seguinte teste: decidi  ver um filme, e escolhi o local e o horário por conveniência, sem saber o que estaria passado. Chegando lá eu escolheria o filme. Mas é claro que o critério de escolha do filme (no meu caso pelo genero e pelo título) também é uma expectativa. Quando leio um título e comparo com os outros, também envolve expectativas. E a escolha do lugar também influência; eu sei, por experiência, que no Estação passa um determinado tipo de filme, no Arteplex outro, no Severiano Ribeiro outro.

Comprometer-se por duas horas com alguma coisa sempre envolve esperarmos sair dessas duas horas diferentes, seja mais leves, com uma boa comédia, seja com alguma reflexão interessante etc.

Talvez não seja só no cinema...

A questão central, entretanto, é como saber o que esperamos? Se soubessemos, não seria mais uma expectativa. Nunca haveria frustração. Nem agradáveis surpresas.

17 de abr. de 2010

Não tenho personalidade

Não tenho personalidade. Sou uma mistura de todas as experiências que já tive. De cada pessoa absorvo um trejeito, uma gíria, um pensamento.

Não sou insubstituível nem único. Sou um fabricante de máscaras, trabalho com fragmentos de minhas presas. Somente eu as uso. Significo para você o que eu quiser.

Não sou sempre o mesmo. Com cada indivíduo que converso travisto-me de filosofia diferente, adapto-me às circunstâncias. Sou um camaleão. Não possuo identidade própria. Adquiro facilmente a coloração do ambiente.

Ao contrário de você, todos os meus movimentos são estudados e pensados. Sim, eu me estudo a todo o momento, nos mínimos detalhes. Meu nascimento é um roubo. Os gregos até hoje procuram as máscaras que usavam para encenar suas peças. Conheço e compreendo como poucos a minha história, sei onde e quando aprendi sobre cada assunto.

Prezo pela verdade, mas sou um mentiroso. Não por desconhecer a verdade, ou dela duvidar. Tampouco vanglorio a mentira terapêutica. Pelo contrário, conheço tão bem a verdade que a acho desinteressante. Prefiro mentir para poder me enveredar pelas tuas entranhas e sugar o teu sangue. Sou sanguessuga. Um sanguessuga de idéias. Já imaginou o poder de um camaleão sanguessuga? Sim, este sou eu.

Minha busca é pelo que não sou capaz de traduzir. Portanto, não se preocupe, não lhe faço mal algum. A finalidade de minha existência depende da sua, sou daquele tipo de parasita que morre junto com seu hospedeiro.

Você já me conhece há muito tempo, mas nunca nos apresentamos. Muito prazer, me chamam Palavra. Seja bem vindo a minha morada, O Teatro.

16 de mar. de 2010

80 anos

Uma semana atrás, presenciei uma cena que gostaria de compartilhar.

Era aniversário dela. 80 anos. Ele já passava dos 88.

- [...] Ela é o pilar de toda a família que com muito orgulho construimos juntos e reunimos aqui hoje em parte: filhos, netos bisnetos, genros, noras e amigos. E por tudo, só tenho a agradecer. [...]

Passou o microfone a ela, que, emocionada, não conseguiu nem precisou dizer mais nada além de:
- Hoje, completando 80 anos, posso dizer que casei com o amor da minha vida.

19 de fev. de 2010

Ensaio IV

Ensaio
Ensaio II
Ensaio III
Ensaio IV

Ensaiara seu melhor sorriso por quase meia hora na frente do espelho. Tinha que parecer feliz pelos seus melhores amigos.

Até que acostumara-se a ideia de vê-los juntos. No início, de fato, foi muito difícil. Amava-o. Ou ao menos achava que o amava. Mas o amor deles era tão perfeito e bonito, que encontrara paz, após alguns meses, dizendo para si mesma que não o amava tanto quanto ela. Pareciam um daqueles raros casais que começavam a namorar na adolescência e envelhecem juntos.

Considerava-se quase adulta por conseguir pensar assim.

Seu pai, que também era sua mãe e gostava de rimas, lhe aconselhava: ''Sofia, acalma tua alma, o amor é nesse leva e trás. Ele sabe o que faz. Sei que vais descobrir, mais cedo ou mais tarde, o teu rapaz.''

Mas ela permanecia inquieta. Talvez por não saber o quão mais cedo ou tarde ele viria. Talvez fosse o retumbante vazio que carregava consigo para todos os lados.

Na verdade, achava ser o amor de seus melhores amigos o único verdadeiro que veria na vida real, fora dos filmes e dos textos literários. Todos os outros casais lhe pareciam vazios.

Meses atrás, naquele último carnaval, sua conclusão fora reforçada. Saia às ruas, e todos desejavam os prazeres de sua carne, afinal, era a festa da carne. Cedia aleatoriamente. Mas a cada beijo que permitia lhe roubarem, parecia perder mais um pequeno pedaço de sua alma. A cada vez sentia-se mais sozinha, mais indivíduo, e o vazio crescia dentro dela.

Parecia que nunca mais amaria alguém.

Era nesse momento que se considerava ainda adolescente, ou melhor, criança. Seriam todos os adultos assim, vazios?

4 de fev. de 2010

Sauna popular

Sauna Popular: R$ 2,80
Alguém achou mesmo que ia dar certo?


[Foto tirada do meu celular em 3/2/2010, às 21:10, na estação Estácio]

Depois do piscinão de Ramos, da farmácia popular, do restaurante popular, o governo do Estado do Rio de Janeiro (somando cagadas), em parceria com a Metro Rio, lança a nova sensação do verão carioca: a sauna popular. O novo serviço, inaugurado com a presença da candidata Dilma está em funcionamento desde 23/12 do ano passado, e compete com o sistema de aquecimento central da cidade como hot point para turistas.

Nem com muito bom humor para aguentar.

Venho sofrendo todos os dias com os inconvenientes do novo sistema do metrô, talvez não tanto quando as pessoas que usam diariamente a linha dois. Saber que o novo sistema traria o caos é uma matemática de 4ª série (ou melhor, do 5º ano).

Para os não cariocas (é que nós cariocas temos a mania de pensar que somos o centro do mundo... bem... de fato somos, mas isso é outra história), devo explicar o que se passa. No Rio tem duas linhas de metro: a linha um liga a zona sul (área rica, copacabana) ao centro; e a linha 2 liga a zona norte (parte da área pobre) ao centro. Antigamente, as linhas se conectavam na estação do Estácio, que apesar de ser considerado um bairro da região centro, é relativamente longe das áreas realmente importantes. As pessoas (pobres) da linha dois tinham que trocar para a linha 1 nesta estação.

Agora não mais! Olha que fantástico: com as obras, a linha dois entra direto na linha um, sem ter que trocar de trem. Qual a consequencia disso? Alternam-se os trens, ora passa o da linha um, ora passa o da linha dois.

Isso não vai aumentar o intervalo entre os três? Óbvio ululante! Para fazer essa gambiarra de uma linha entrar na outra (que até existe em metrôs de países civilizados, como o de Paris), o projeto era reduzir o intervalo de 4 min para 2,5 min.

Mas pera lá... se na parte do centro vai ter trem a cada 2,5 min, nas partes das linhas 1 e 2 que não estão conectadas, o intervalo entre os três será de 5 min. Bingo! Pensa só: a linha dois já era entupida com trens a cada quatro minutos, agora que passa um trem a cada 5, tem gente saindo pelo ladrão.

Se fosse só isso, ok. Mas o prometido não tem funcionado; o intervalo entre cada composição é bem maior do que o planejado, porque eles não sabem operar isso de trens vindo de lugares diferentes entrarem na mesma linha.

Com todos os problemas causados pela novíssima e burra integração direta entre as linhas, na área do centro, a Metro Rio esqueceu-se de manter seus trens funcionando decentemente. Resultado: o ar condicionado volta e meia está com defeito. E para fazer estas obras estapafúrdias, o governo do estado ainda concedeu mais 20 anos para a empresa gerir o metrô. Ou melhor, criou o serviço de sauna popular, para fechar com chave de ouro o governo Cabral.

21 de jan. de 2010

Sobre jardins e borboletas

Sobre jardins e borboletas

Dizem que não se deve caçar borboletas, basta cultivar o próprio jardim que elas aparecem.

Cândido, um dos meu personagens preferidos da literatura, depois de todas as suas viagens azaradas sempre buscando ver o lado bom de tudo, aprendeu que o melhor mesmo é cultivar o próprio jardim.

Conhecimentos não muito avançados de biologia dizem que borboletas são metamorfose de lagartas. As borboletas depositam os ovos de lagartas, que crescem, formam casulo e depois se transformam em borboletas novamente.

Lagartas são parasitas de vegetais verdes. Vi isso no jardim que meu pai cultiva lá em casa: lagartas devorando a couve que plantamos e cuidamos com todo carinho e atenção. Não importa o tipo de folha, as lagartas devoram!

Bom, se é para cultivar o jardim, melhor não atrair borboletas.

Mas de que vale um jardim sem borboletas?

13 de dez. de 2009

Templo

Templo

[Silêncio]

Posso ouvir meus passos
Eles não se perdem
Na confusão da cidade

Aqui o silêncio respira
Me respira
Como se eu fosse natureza
E ele pessoa.

Posso ouvir cada sua
Golfada de ar
E durmo ao som
De uma nascente d’água

Aqui a vida pulsa em mim.
Não preciso de chave para entrar
E a janela está sempre aberta
Para a brisa que acalenta

Pertenço a este lugar
Sou este lugar
- Idílio

Terias tu coragem de entrar?

29 de nov. de 2009

Conteúdo e Forma

Conteúdo e Forma

Ando em busca de uma definição de arte. Mais que uma definição, na verdade necessito (é uma questão particular) de um conceito.

Estive olhando aqui no blog, e vários textos tangenciam o assunto. Caso se interesse, eu poderia mencionar, numa listagem não exaustiva "Banalidades e Onirismo", "Primogênitos Desgraçados", "Poesia é Código", "Desde setembro" e "Arte!?".

Foi uma desenhista indústrial que falou, bem en passant: "o conteúdo é indissociável da forma".
Bingo. Isto foi mais de dois meses atrás, e a frase não saiu da minha cabeça.
[Nota: eu escrevo textos para tentar me livrar dos assuntos]

O meu conceito de arte envolve, portanto, forma e conteúdo. Eu consigo imaginar forma sem conteúdo; aliás, é muito fácil: estudos de virtuosidade para piano, filmes do Quentin Tarantino.

Mas o contrário. O contrário é indissociável. Não existe artista que prescinda da técnica, de toda a técnica. Se houvesse uma forma de transformar sonhos em arte, essa forma já seria a técnica. Não foi por acidente que eu disse "se houvesse uma forma". Infelizmente, para fazer arte, é preciso dominar algum intermediário, algum caminho que permita que o tamanho do seu sonho seja transmitido aos outros.

Na arte, para mim, o fundamental é o conteúdo. Alguém que desenvolve somente a forma não é artista. Talvez artesão. Talvez desenvolva uma técnica que será usada por um artista. Mas quem desenvolve só a técnica não faz arte.

Para além do artista, há o artista genial: aquele que revoluciona a técnica fazendo arte.

Mas falta alguma coisa. Essa alguma coisa é a mesma que me falta para o conceito de amor. Amor significa carinho, tesão, companheirismo, amizade e... algo mais. A autora do blog palavrório [só procurar nos diretores recomendados ali à esquerda] define isso como o intexterível, o que não dá para fiar em palavras.

É uma conclusão romântica, eu sei. E metafísica. Mas veja, há uma diferença crucial: não é possível se atingir o cerne do mistério sem dominar a razão, a forma, a técnica. Da mesma forma que o amor não é possível sem amizade, tesão, companherismo, carinho. Arte e Amor são conceitos muito próximos, pois comungam do intexterível.

P.S.: Uma questão de forma. Já está muito tarde e estou com preguiça de por os links bonitinhos para os textos citados; farei-o em outra oportunidade.

26 de out. de 2009

O Martir da Liberdade

O Mártir da Liberdade

Ele queria a Liberdade, a mais pura e cândida Liberdade. Mas todas as suas tentativas esbarravam no Outro.

À todas as Suas ações, o Outro inevitavelmente reagia. Talvez não seguindo a Terceira Lei de Newton, talvez não seguindo a distribuição de probabilidades de Gauss, mas reagia. Por conseqüência, Sua Liberdade não era plena, pois sempre teria que se defrontar com a reação do Outro.

Foi então que percebeu a sutil cilada: a inexistência de Liberdade era condição intrínseca à vida. Se agisse no momento zero, o Outro reagiria no momento um, e sofreria as conseqüências desta reação no momento dois.

Concluiu, em sua lógica inabalável, que a única forma de ser livre era não viver, pois não estaria mais presente quando o Outro reagisse à notícia de seu derradeiro ato de Liberdade.

O Outro chorou, passou algumas noites em claro; mas Ele não estava mais lá para ver, ouvir, sentir... eliminara o momento dois.

E a Vida? Continua. Sem Ele.

20 de set. de 2009

Porto Seguro (outros versos)

Porto Seguro (outros versos)

Num mar infausto
Um barco, um claustro
Serei teu mastro
Maestro e solista

Naquela pista a
Duzentos por hora
Vendo teus olhos
e guio, vambora

Por traz de tudo
Eu que conspiro
Teus passos são
o ar que respiro

Sou teu vampiro
E também caubói
Me fantasio
Até de herói

Nem um segundo
Te deixo em paz
Sou vagabundo
E também capataz

E se achar que está sozinha
todos os sons vão lhe lembrar

Sussurros meus ao pé do teu ouvido...

(E quando tudo ficar escuro
Eu posso ser o seu porto seguro)

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Ouça a versão cantada em:
Di-vagar

5 de set. de 2009

Sobre o oeste e o leste

Sobre o oeste e o leste

Era uma vez dois amigos de longa data que conversavam no mensageiro instantâneo sobre as impressões dela sobre a Europa. Ela estava morando na França havia cerca de 5 meses, viajara por alguns países europeus, tanto do oeste quanto do leste. Segue um fragmento do que conversaram:

(...)
Ela:
- O pessoal do Leste Europeu é muito mais caloroso do que o povo aqui da França e os do oeste em geral; tanto meninas quanto meninos.
Ele:
- Engraçado isso, não? A imagem do regime socialista é de que as pessoas são frias que o mundo é frio, pois tudo é igual. Mas por outro lado você tem a impressão de que essas pessoas são mais calorosas e simpáticas que os europeus. Será que ao menos os europeus do Oeste são simpáticos entre eles mesmos?
Ela:
- Mais do que com os estrangeiros, com certeza. Mas é o jeito deles mesmo, são frios. Em minha opinião de futura socióloga, essa “calorosidade” dos europeus do Leste se deve justamente, numa contraposição, à frieza do regime socialista.
Ele:
- Talvez não seja exatamente uma contraposição, porque num regime comunista as pessoas talvez sejam mais solidárias; em oposição ao regime capitalista que preza pela competição, por que cada um seja independente do outro.
Ela:
- Não sei se nossas posições são complementares ou opostas. Eu disse que eles são mais calorosos em oposição à frieza e dureza do regime; você disse que eles são calorosos por causa de uma suposta maior solidariedade do regime comunista. Se tomarmos o regime comunista de dois pontos de vista ou ângulos diferentes, nossas visões se complementam; se tomamos o regime comunista globalmente, somos opostos necessariamente.
Ele:
- Eu acho que você tem sim um ponto. Mas deixe-me ir adiante. No comunismo, as formas de expressão são sempre tidas como frias, sem sal nem açúcar. Como se a arte tivesse morrido. Isso se expressa na arquitetura (acabo de ler a descrição muito boa de um amigo que está em Hamburgo e foi visitar Berlim, mostrando os contrastes da cidade dividida - parece que o muro não caiu, ou ainda está por cair). Mas acho que a ausência de alma na arte é uma conseqüência de se viver num regime em que há muito mais solidariedade. É como a arte clichê do casal apaixonado, que normalmente é ruim para quem esta de fora, se comparada com a arte produzida em momentos de tristeza, de separação, de dúvida, que aos olhos externos parece carregada da alma do artista. Como vivemos num mundo competitivo e estamos em alguma medida sempre sozinhos, competindo, canalizamos nossa alma não para a relação com os outros, mas para o papel e para a arte de modo geral. Falo de uma reificação da expressão dos sentimentos. Como não conseguimos nos expressar na relação com os outros, canalizamos tudo para a os objetos, para as coisas.
Ela:
- Concordo com a parte em que você fala sobre o capitalismo, mas acho que para explicá-la você usou uma visão idealizada de como foi o regime comunista, com a qual eu não concordo.
- É verdade. Então acho que chegamos, de alguma maneira, num acordo?
- Jamais!
(risos)

(...)

8 de ago. de 2009

Poesia e codigo

Há pouco mais de um mês li uma frase perturbadora:

“Código é poesia. Ninguém sabe o que significa”

Era um artigo sobre a conferência internacional de CMS (Content Management System), e frase foi proferida pelo criador da Word Press, concorrente do nosso blogspot em hospedagem de blogs e afins. A idéia é que para que as pessoas comuns possam usar a internet como ferramenta de comunicação, elas não devem precisar conhecer a linguagem de programação.

link para matéria completa

Como toda boa peça publicitária, esqueci o que ela significa no contexto original, e fiquei matutando sobre seus diversos significados implícitos, obscuros e, claro, não desejados pelo emissor.

Ele afirma categoricamente ninguém sabe o que significa poesia. E, pensando bem, isso de fato se aplica a muitos poetas. Ontem estive no MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói). De fato, a arte contemporânea é feita para não ser entendida. Aliás, permita-me um pequeno parentesis: morte aos arquitetos (ao menos ao Oscar Niemayer), que não sabem construir nada funcional, pois ser útil é totalmente secundário diante do ser bonito.

Bem, retornando, uma arte feita para não ser entendida é, na minha singela opinião, uma negação da arte. Eu gosto muito de descobrir significados não pretendidos pelo artista, mas uma obra que não tenha um ou vários significados desejados, para mim não passa de casca de árvore, sem vida. Até pior, pois a casca da árvore já teve vida um dia.

Uma vez perguntaram para um pianista o que ele sentida quando tocava. Ele olhou para a entrevistadora com certa piedade, deu um profundo suspiro, e respondeu: “se eu soubesse explicar com palavras, eu seria um poeta; como sou músico, sugiro que você me escute tocando”.

Toda arte é uma tentativa de se expressar, de dizer alguma coisa, um conteúdo. Às vezes, o significado não está claro em outra forma, em outras palavras além daquelas em que se expressa o artista. É por isso que alguns poetas não conseguem e nem podem se explicar.

Gostaria, então, de parafrasear o Sr. Matt Mullenweg, criador do WordPress, e dizer: “Poesia é código. Só o seu emissor pode saber o que significa.” E a grande questão do relacionamento humano é decodificar a poesia de cada um nos termos da nossa própria poesia.