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27 de set. de 2010

Ironia

Sofia chegou em casa com aquele sorriso irônico no rosto, cheio de malícia. Seu sexto sentido de pai sabia que dali viria uma adolescencia.

- Pai, hoje a gente estudou em História que o Tiririca tem o recorde de votos para Deputado no Brasil. Não é aquele que você tem disco?

(silêncio constrangedor)

- Pois é, minha filha. Foi. Mas eu não votei nele não.
- Eu te deserdaria se você tivesse votado nele, disse Sofia, divertindo-se com a provocação

Ele pensou em explicar que nem se quisesse poderia votar nele, pois ele fora candidato por São Paulo. Preferiu uma rota alternativa:

- A situação política na época era muito diferente de hoje. Havia um descontentamento geral com os políticos. Muita gente achou que votar nele era uma forma de protesto.
- Se o descontentamento era geral, por que as pessoas não se mobilizavam e se candidatavam? Votar num palhaço para protestar, que pessoas burras!

Titubeou. Não conseguia colocar em palavras o imobilismo e o desamimo que dominavam aqueles tempos de sua juventude.

- Você esta mudando de assunto, protestou ela. Eu queria saber o que faz o disco dele na nossa prateleira, bem depois do The Doors e do Titas?
- Eu pedi para sua avó comprar este disco quando criança, lá para uns 8 anos. Era moda na época, anos 1990. O disco ficou na minha coleção, hoje até vale uma grana como raridade bizarra. Nunca mais escutei, diferente de você que tem até hoje músicas da Isabela Belinha no seu iAll.

(silêncio constrangedor)

- Ao menos eu não tive que aturar o Tiririca fazendo discurso em Brasília. Ele não era analfabeto?
- Acredite, minha filha, dos males o menor.

19 de fev. de 2010

Ensaio IV

Ensaio
Ensaio II
Ensaio III
Ensaio IV

Ensaiara seu melhor sorriso por quase meia hora na frente do espelho. Tinha que parecer feliz pelos seus melhores amigos.

Até que acostumara-se a ideia de vê-los juntos. No início, de fato, foi muito difícil. Amava-o. Ou ao menos achava que o amava. Mas o amor deles era tão perfeito e bonito, que encontrara paz, após alguns meses, dizendo para si mesma que não o amava tanto quanto ela. Pareciam um daqueles raros casais que começavam a namorar na adolescência e envelhecem juntos.

Considerava-se quase adulta por conseguir pensar assim.

Seu pai, que também era sua mãe e gostava de rimas, lhe aconselhava: ''Sofia, acalma tua alma, o amor é nesse leva e trás. Ele sabe o que faz. Sei que vais descobrir, mais cedo ou mais tarde, o teu rapaz.''

Mas ela permanecia inquieta. Talvez por não saber o quão mais cedo ou tarde ele viria. Talvez fosse o retumbante vazio que carregava consigo para todos os lados.

Na verdade, achava ser o amor de seus melhores amigos o único verdadeiro que veria na vida real, fora dos filmes e dos textos literários. Todos os outros casais lhe pareciam vazios.

Meses atrás, naquele último carnaval, sua conclusão fora reforçada. Saia às ruas, e todos desejavam os prazeres de sua carne, afinal, era a festa da carne. Cedia aleatoriamente. Mas a cada beijo que permitia lhe roubarem, parecia perder mais um pequeno pedaço de sua alma. A cada vez sentia-se mais sozinha, mais indivíduo, e o vazio crescia dentro dela.

Parecia que nunca mais amaria alguém.

Era nesse momento que se considerava ainda adolescente, ou melhor, criança. Seriam todos os adultos assim, vazios?

16 de mai. de 2009

Ensaio III

Ensaio I
Ensaio II

Ensaio III

Ensaiaram aquela amizade meses a fio. Ajudou, é verdade, a companhia dos gêmeos Sofia e Artur, amigos em comum. Sofia era mais intelectual, convidava-os sempre para teatros, museus e filmes “Cult”; Artur era o sujeito noturno, marcava as saídas para dançar, ou mesmo para jogar conversa fora no boteco depois das aulas. Apesar dos gostos diferentes, os quatro estavam sempre juntos.

Já estavam quase sendo elevados à categoria de irmãos postiços, pois viviam na casa dos gêmeos. As tardes de domingo eram de todos os momentos os mais divertidos. Juntavam alguns outros agregados à família e reviviam a infância com Banco Imobiliário, Imagem & Ação, Adedanha, Vítima, Detetive e Assassino etc. Aliás, a Adedanha era o único momento em que às vezes se desentendiam: eram sem favor nenhum os dois melhores jogadores, imbatíveis, e travavam um duelo feroz, seguidos de perto por Sofia.

Sentavam sempre no conforto do chão da varanda. Hoje ela não estava bem, Sofia e ele estavam empatados no primeiro lugar.

- Programa de TV: Fantástico, gritou Sofia, a primeira da ordem
- Fama, disse Rebeca.
- Fantástico também, lamentou Renato. Sofia amarrou a cara.
- Friends, sorriu Helena.
- Nada, disse Artur constrangido, não deu tempo.
- Fica Comigo, comemorou ele, desempatando o jogo com Sofia.
- Sinto muito, interrompeu ela ironicamente, 5 para você.

Ele ficou transtornado e tentou puxar o papel da mão dela. Ela foi mais rápida, ele quase caiu. Todos riram. Enquanto isso ele sorrateiramente conseguiu olhar o papel dela. Estava escrito “Família Dinossauro”, como ele previra. As risadas foram diminuindo e ele sentiu as mãos dela puxando as suas para levantá-lo. Virou-se. Viu que sorriam também os olhos dela.

O tempo parou. Começou uma gritaria ao fundo, mas nenhum dos dois ouvia. Depois de experimentarem o infinito, decidiram continuar a jogar. Sabiam ter todo o tempo do mundo, e que nada mudaria.

E ele resignou-se, feliz, com seus 5 pontos.