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8 de dez. de 2008

Idolo

Chegou ao fim mais uma edição do Campeonato Brasileiro. E a última rodada se aproximava enchendo todas as torcidas de expectativa. Não vou comentar o hexa do time do Morumbi, tampouco o triste naufrágio da caravela cruzmaltina. Pouco se falou, mas houve uma forte movimentação e muita comoção em torno de outro acontecimento.

Três dias antes, caminhando pelo charmoso e tradicional bairro de Laranjeiras, pude avistar dezenas, talvez centenas de camisas tricolores. Conforme eu me aproximava da sede do clube, os tricolores iam se multiplicando. Para os "idiotas da objetividade" do gênio Nelson Rodrigues, tal mobilização seria descabida já que áquela altura o Fluminense não tinha grandes aspirações no certame. Mas havia algo muito mais nobre e singelo por trás do turbilhão que mexeu com Laranjeiras e adjacências. Ali se via uma demonstraçãosincera de amore já uma ponta de saudade pela iminente despedida de um ídolo do porte que o clube não tinha a anos. Eram várias crianças invadindo os treinos pedindo autógrafos, e o ídolo, monstro, esbanjando simpatia ao assinar inúmeras camisas e papéis e posar para tantas outras fotos. Ficava horas atendendo todos. E assim foi até sábado, dia do último treino do ano, o qual mais uma vez acompanhei ao vivo. Assim que se encerrou o ritual, ele entrou no carro e partiu. Foi quando notei na boutique do clube uma grande fila, pois todos queriam comprar munhequeiras semelhantes à usada pelo melhor zagueiro do Brasil. Saindo da sede, vi uma fila ainda maior, que dobrava a esquina e causava impacto em quem passasse, tudo para comprar um ingresso e garantir presença no adeus do ídolo, o que fez o Maracanã receber o maior público da rodada em um jogo aparentemente sem valor.

No fim, o que agitou os mais de 51000 tricolores não foi o fracasso consolidado de seus dois rivais centenários, muito menos uma possível irritação pela partida fraca do Fluminense. Com lágrimas nos olhos, Thiago Silva deu a volta no gramado agradecendo à massa pelas emoções proporcionadas no tempo em que ostentava o manto verde, branco e grená. E a plenos pulmões, todos cantavam esperançosos: "Ah, Thiago vai voltar!". Eu como tricolor fiel e fã incondicional digo apenas muito obrigado e desejo felicidades ao meu ídolo. Fica aqui minha homenagem.


"Guerreiro da zaga tricolor
Raça, habilidade e vigor
Thiago Silva é rei
Jamais me esquecerei
Do mito que a torcida consagrou"

3 de nov. de 2008

Demorei a escrever este texto porque fiquei indeciso em relação ao tema. Pensei por semanas, mudei de idéia tantas vezes, mas finalmente chegou a minha mais nova postagem. Foram idéias das mais variadas, mas finalmente tomei uma decisão. Quanto ao sucesso dessa brincadeira, estou longe de ter alguma certeza.

Em 1992, tive meu primeiro contato com o futebol, na final do Campeonato Brasileiro, entre Flamengo e Botafogo. Não gostei do primeiro por causa de sua torcida e do segundo por intuição infantil. O título rubro-negro me fez associar o clube de General Severiano a algo depressivo. Foi uma sensação tão forte que não foi desfeita até hoje. Resumo da ópera: acabou o campeonato e eu não era flamenguista nem botafoguense. Um certo tempo depois descobri o time do vovô. Aquela camisa com um cinto de segurança até que não me despertou antipatia. Vi o time ganhar alguns campeonatos, mas não me envolvi afetivamente. O Vasco não me cativou e ponto final. Até que em 1994 eu reencontrei o Botafogo. Tinha até uma leve simpatia, assisti a uma partida e então firmou de vez a ligação do alvinegro com a tristeza. Foi uma derrota humilhante. Me deu pena ver a Estrela Solitária apanhar daquele jeito. Tive um sentimento bem estranho. Misturava piedade por um clube cujo fracasso era recorrente, e encanto por um outro que eu não conhecia e me impressionou de cara. O manto tricolor tinha algo a mais, muito além dos 7 gols sobre o rival abatido. Depois desses dois anos eu me decidi: "Pai, eu sou Fluminense!". Enfim, a dúvida morreu, dando lugar a uma história de amor da qual não me arrependo nem um pouco.

Morreu nada. A maldita da dúvida só se transformou. Ainda falando em amor, na vida de um adolescente, às vezes aparece aquela menina simplezinha, meio acanhada, que vive dando sinais discretos, e que com o tempo começa a despertar algum interesse. Nasce a atração, mas que não é logo acompanhada de uma ação. Se o moleque é tímido, pensa dez vezes antes de agir, com medo do fracasso. Por sua vez, se for mais atirado e confiante, fica no dilema: chega na menininha boazinha ou chega na boazuda, aquela gostosa que o colégio inteiro sonha em dar uns pegas? O primeiro caso normalmente acaba mal sucedido: o menino fica com vergonha e perde a oportunidade, ou fica nervoso, chega frouxo e falha. O segundo também tende à frustração: provavelmente o garanhão chega junto da gostosona, que marrenta, dá um toco sem dó. Fica também sem a menininha boazinha, que se encanta por um terceiro garoto, esperto e certeiro. A hesitação provocou uma demora. Fatal. Falo com conhecimento de causa pois já vivi algumas situações do tipo.

A dúvida não é exclusiva das crianças e adolescentes. Na fase adulta ela é igualmente cruel, pois o ser humano é indeciso por natureza. Quando parece que temos as soluções de todas as questões, novas questões aparecem. Não tem jeito mesmo. Na maturidade, tanto homem quanto mulher, ficam com a sensibilidade à flor da pele, em geral transbordando insatisfação. Enquanto é solteiro, quer casar. Quando casa, quer morrer. A mulher adora reclamar do marido. Vive dizendo que ele é devagar quase parando, que quase não comparece mais, mas eis que quando ele comparece...:"Ai amor, hoje eu tô com uma dor de cabeça... Vamos dormir né...". Acho que vocês estão de prova que não é na maturidade que se descobre o que cada um quer pra si mesmo.

Tem aqueles momentos mais comuns, como o de entrada no vagão do metrô, quando é preciso decidir em uma fração de segundo se é melhor sentar apoiado na janela, de costas pro movimento da composição, ou se é preferível ficar no corredor, sem apoio, mas de frente, no sentido do deslocamento. Experimente ficar escolhendo muito pra ver o que acontece. Pode ter certeza que aparecerão dois desesperados, e na base do tapa ocuparão os dois lugares, te deixando de pé, cansado. É tão comum quanto ficar na dúvida entre o sorvete de morango ou de chocolate. Quando vem a decisão..."Amigo, vou ficar te devendo essa, o de morango acabou de acabar."

Depois de toda a explanação, concluí que o texto foi inconclusivo. Somos seres dominados pela incerteza, pela indecisão, aflitos pela descoberta, que nunca vem. Principalmente desejamos saber sobre nossa origem. Vivemos em um mar de dúvidas, navegando em uma tensão dialética entre o dogmatismo religioso e o ceticismo científico. Faz parte. Longe de mim, em meio a tantos conflitos colocar a mão no fogo por alguma coisa. Eu não acho nada, quanto a vocês, aí mesmo é que eu não sei.

16 de ago. de 2008

Era uma sexta-feira à noite, e mais uma vez a semana se encerrava da mesma forma. Parei na Presidente Vargas, olhei pro céu estrelado e com uma lua linda, que me fez lamentar pelo dia de sol perdido dentro de uma sala de aula explicando a tal da análise combinatória que tanto nos frustra. Frustra porque os alunos em geral não correspondem. Por outro lado, fiquei feliz ao lembrar que dentro de algumas horas nasceria um belo sábado com sinais de que daria praia. Parei na Central pra comer um salgadinho massudo com um aguado refresco de caju. Já eram 21:31, então tive que me apressar pra não perder o trem que sairia 4 minutos mais tarde, sob a pena de ter que esperar mais meia hora. Fui a passos largos como de costume, em direção à plataforma 6 linha F. Já não tinha mais lugar vago pra sentar então fiquei de pé, me segurando em uma das várias chupetas livres do vagão. O maquinista então resolveu dar o ar da graça. Abriu o som e disse:" Prezado cliente, este trem se destina ao terminal Santa Cruz. Horário pevisto de partida: 21 horas e 35 minutos. Tempo previsto de viagem: 1 hora e 40 minutos." Quando ele terminou de falar eu lembrei que o trem era parador...Puta merda! Pra completar meu desânimo o maquinista reabriu o sistema de som e disse:" A Supervia deseja a todos um bom descanso." Ah pára mané! Como dizia vovó, é o fim da picada! O safado em vez de desejar boa noite, fez questão de lembrar que eu tava cansado! Já eram 21:35, hora de partir, quando veio o sinal sonoro :"Tuuuuuuuuuuu...". Esse é o som emitido pelo trem quando as portas vão fechar. Como sempre tem um idiota que segura a porta, esse barulho torturante se repete por volta de umas 3 vezes. Naquele dia, o idiota nem me irritou, mas mostrou uma ponta de altruísmo. Travou a porta pra permitir a entrada de um humilde catador de latas. Só que para tensão de todos os presentes, não teve força suficiente pra agüentar a porta pesada, que fechou por cima da grande sacola de latas. O pobre homem ficou dentro do trem, com a maior parte do saco presa na porta. No desespero, tentou puxar as latas pra dentro. Foi então que eu escutei um barulho metálico, que anunciava todo o seu dia de trabalho jogado nos trilhos. Ele externou sua tristeza mostrando a nós um sorriso desfalcado. Tão desfalcado que se aquelas peças entrassem em campo seria derrota por "wo". Só consegui avistar o centroavante, o ponta esquerda(esse era negão como Pelé e quase todos os craques) e o lateral direito lá atrás. Impotente, fui aos poucos me desligando da situação. Depois comprei uma Coca-Cola, dando a lata amassada ao pobre coitado, desolado no chão do trem. Foi quando notei uma rodinha de conversa, que tinha como papo minha religião, o futebol. Eles falavam do "Fra-Fru" que aconteceria no domingo seguinte. Decidi me meter na roda e dar meus pitacos, sabendo que seria minoria. Era Bruno pra lá, Obina pra cá, até que um herege desgraçado afirmou de cara limpa que o bom, mas humano zagueiro Fábio Luciano era mais zagueiro que Thiago Deus Silva!! Fui insultado por tamanha heresia. Na mesma hora resolvi me auto-excomungar daquela conversa. Caminhei em direção ao outro vagão rezando a João de Deus, clamando pelo perdão daquele infeliz. No outro vagão o clima era contrastante. Foi um impacto gostoso. A primeira coisa que escutei foi: "-Chegou em casa outra vez doidão, brigou com a preta sem razãão! Quis comer arroz doce com quiabo, botou sal na batida de limão...". Pois bem, eu tava no meio de um pagode animado, com direito a pandeiro e ganzá. Fiquei tão entretido que acabei esquecendo o desaforo rubro-negro. Saudei um vendedor de bananada vestido com a camisa do Fluminense Campeão Carioca de 2005, e no momento em que olhei pela janela vi a quadra da Mocidade. Já era pra ir embora. O pagode tava tão bom que eu nem senti o desgaste das 23 estações. Desci feliz e reflexivo ao mesmo tempo. Fiquei pensando na vida do subúrbio e só concluí uma coisa. Ela é bem diferente da bananada. Nem sempre é macia e açucarada, e certamente, pelo menos como experiência, vale muito mais que 10 centavos.

26 de jul. de 2008

Estréia

Nessa minha primeira apresentação, acho interessante trazer algo bem no meu estilo, que faça jus à minha definição de contador de histórias. E aí vai. Espero que seja do agrado de vocês.

Um dia desses estava eu entediado na sala de espera do consultório médico aguardando minha vez de fazer o famoso "check-up". Não tinha nada pra ler a não ser uma "Caras" com Luciana Gimenez na capa. Ou seja, de fato não tinha nada pra ler. Assistir Ana Maria Braga e Louro José definitivamente não me atraía. A posição era desconfortável pro cochilo, então só me restava prestar atenção ao papo de duas mulheres que também esperavam sua vez. Peguei o bonde andando mas aos poucos fui notando que elas falavam sobre remédios de emagrecer e produtos tipo "diet shake", mas eram mulheres razoavelmente em boa forma, pelo menos no meu gosto. O papo era enfadonho, entretanto fiquei com aquilo na cabeça, até que surgiu uma voz masculina, grossa, quebrando o marasmo dos meus pensamentos. Eu tinha sido chamado para a atualização da ficha. Segui a tal voz e me deparei com uma figura caricata(quase ri). Era magrelo e a cara dele vista de perfil parecia uma lua nova, de tão avantajado que era o queixo. Ali minha auto-estima subiu consideravelmente. Subi na balança e assim que ela se estabilizou, pude visualizar o número 60,5. O que aquele número tinha a me dizer, além da reação normal da balança sobre mim? Lembrei daquela conversa chata entre as duas mulheres, somando à minha sensação de bem-estar ao ver um cara que através de sua feiúra elevou minha auto-estima. É esquisito, mas depois da revolução sexual dos anos 60, nossa sociedade ocidental tornou-se cada vez mais competitiva em termos de beleza, alavancando a indústria dos cosméticos e difundindo a “ideologia” das academias de ginástica, ou então a indústria dos músculos e suplementos. E o perigo consiste justamente aí, pois nós homens muitas vezes acabamos tendo obsessão pela massa muscular, podendo acarretar no uso indevido de certas substâncias nocivas, cujos prejuízos podem ser irreversíveis. Quanto às mulheres minha preocupação é ainda maior, já que de um modo geral elas são mais vaidosas que nós, o que provoca um grande sofrimento, que por sua vez as torna escravas da balança. Balança? Olha ela aí outra vez! Afinal, o que aquele 60,5 queria dizer, além da força normal que a balança exercia sobre mim? Acho que nada! Eu, uns 3 sacos de cimento, ou uns 7 cachorros vira-lata não produziríamos um efeito muito diferente na tal da balança. Então pra que dar tanta importância ao número que lá aparece? Será que faz sentido? Eu acho uma tremenda neurose! O que realmente importa é o que a nossa capacidade de avaliação e discernimento diz, e não a indicação de um aparelho. Podemos ter características físicas distintas, como os números medidos pela balança, e nem por isso sermos menos atraentes. Repito, isso quem vai julgar não é um medidor de massa, mas sim nós, seres humanos. E cá entre nós, eu faço isso direitinho. Então, meninas, se quiserem ter a experiência e precisarem de algum apoio afetivo, posso deixar meu endereço, telefone de contato, msn, orkut, afinal, estamos aí.