24 de dez. de 2013

Brincadeiras


Fingir não ser o que é
Divertido mas sempre chega a hora de nos reencontrarmos
E o reencontro é sempre violento
É vida versus vida
Vida querendo ser vivida
Completamente dominante
Feito luz balão que sobe e teima em tomar o lugar do sol
Iluminando a tudo e a todos
Possessiva
Entro em meu quarto e ela me acerta e transpassa feito raio de sol
Etéreo é o meu corpo e a minha alma
Etérea também é a minha vida e a minha existência
Sem sentido talvez...
Sendo sempre vida preenchendo vida de sentido
Há muitas vidas em uma só
Muitas vividas, outras que jamais desabrocham ou amadurecem
Sempre latentes, sedentas por plenitude
Viver é preencher de significado, fazer escolhas
Viver é viver e viver também é
Matar e morrer.

9 de nov. de 2011

Invenção

Não sou afeito à inspiração. Com precisão matemática, invento que invento.

Cada detalhe, casa mísero detalhe, posso lhe assegurar, foi minuciosamente estudado. Não há interpretação possível que me escape à atenção.

Escolho cuidadosamente pontos e vírgulas;

quero dominar tua respiração, caro leitor.

Com muito esmero, 
alitero.
Reitero:

escrever não é cortar palavras,

mas desinventá-las.

***************************************


Frases cortadas do texto:

Evoco suores e suspiros. Riso. Gozo. Suspense.
Assim, ninguém jamais desvendará a pessoa simples por trás do enigma de palavras; daquele que nada mais é além do que escreve.

31 de out. de 2011

Respostas

Respostas, não quero-as para mim
Quero encontrá-las para oferecer de graça
Àqueles que padecem da dor da dúvida

16 de fev. de 2011

Saori está com fome

Achei este texto nos arquivos mui antigos do meu computador. A autoria, conforme meu arquivo original, é de Carla Chabet, embora eu não a conheça. Fiz uma busca no Google e não achei nenhuma referencia em nenhum blog ou página da web, portanto, posto ele aqui para que ele passe a estar disponível na internet. Caso a autora considere alguma violação de direitos autorais, por favor me informe nos comentários que retiro o texto imediatamente.

O meu arquivo não está com título, por isto coloquei este que me pareceu adequado. Aceito outras sugestões.

Saori está com fome
Por Carla Chabet. Copyright © 2004

Saori (fazendo um comentario) - Acho que estou com fome.
Shiryu - Com fome?!
Saori - Sim, com fome.
Seiya - Então vamos, não podemos ficar aqui parados enquanto Athena morre de fome!!!
Shun - Vc está dizendo que Athena está morrendo de fome?!
Ikki - Foi o que ele disse. Alguém terá que ir até a padaria.
Hyoga - Até a padaria?!
Ikki - Sim, precisamos de pão.
Seiya - Pão?!
Shiryu - É, Ikki tem razão, pão seria a escolha mais prática.
Seiya - Eu irei até a padaria então!!!
Saori - Não Seiya, vc está cansado, precisa se recuperar!!!
Shun - Ela tem razão Seiya, eu posso ir se vc quiser.
Seiya - Não Shun, é melhor que fique toamando conta de Athena. Não se preocupem voltarei logo.
Hyoga - Não sei Seiya, vc não parece muito bem, talvez não seja o mais idicado para trazer o pão.
Seiya - O Que vc está dizendo?! Posso pegar o pão. Será difícil, mas elevarei meu cosmo ao máximo.
Shiryu - Eu gostaria de te acompanhar Seiya.
Seiya - Será uma honra Shiryu.
Shun - O Shiryu vai também?!
Saori - Talvez também seja conveniente trazer leite.
Shun - Leite?!
Ikki - Leite seria bom.
Hyoga - Neste caso eu também vou.
Shiryu - Precisamos nos apressar, o tempo está correndo, o estômago de Athena ronca cada vez mais alto.
Shun - Mas então será pão e leite?! Quanto de cada um?!
Hyoga - Não sei Shun, o que vc acha?!
Shun - Eu?! Ah, eu não sei!! O que farei?! Ikki me ajuda!!!
Ikki - Acho que 10 litros de leite e 30 pães daram para todos nós.
Shiryu - Deve ser o suficiente.
Shun(olhos mareados) - Que bom que vc está aqui irmão!!!
Hyoga - Não temos mais tempo!!!
Shun (em soluços) - Está dizendo que não temos mais tempo, é isso?!
Ikki - Chega dessa ladainha, vão logo buscar esse maldito pão!!!
Seiya - Ikki tem razão, vamos!!!
(...)
Tatsumy - Eles estão demorando! Onde está o pão??????!!!!
Saori - Confio em Seiya e nos outros... Eles trarão o pão.
Shun (ainda entre lágrimas) - Sim! Eu tb acredito!!!
Ikki - Devem estar com problemas, eu, a ave fênix, vou ajuda-lo!
(Quando Ikki chega descobre que Shyriu ficou para tras num cruzamento movimentado, segurando os carros para que Hyoga e Seiya passassem; Hyoga ficou chiorando esperando a morte na frente da vitrine dos croassants, os preferido de "mamãe!!!" e o Seiya está se acabando com o padeiro, quase morto pensando "Meus amigos e Athena precisam de mim! Não posso jogar seus sacrfícios fora!! Não vou morrer agora!!!" dae ele atinge o sétimo sentido e derrota o padeiro.)
Doze horas depois, quando Athena está prestes a definhar, eles chegam com o leite e os pães.
 

21 de jan. de 2011

Diluvio

- Ta quieta por que, minha filha? O gato comeu sua língua?
- Eu teria muito o que dizer, pai. Mas a água levou tudo, não importa. Agora precisamos mais dos braços do que da boca.

3 de jan. de 2011

Fugacidade (ou a ausência eterna)

Ah, o eterno desenlace.
O desenrolar de um nó, de uma fita
Eternamente atada.
Ah, o fim. É o fim.
E nada mais.
Me pergunto: o que foi feito da poesia...
Porém, há a vida que tem de ser ganha.
Mas parece que quem ganhou foi a vida.
A vida, ávida, a vida.
Só um pôr-do-sol,
Imagem onírica de minha infância
É assim que se vive a vida,
Num sonho eterno onde passarinhos
Cantam ao entardecer e galos tecem a alvorada
E ao mesmo tempo, se perde tudo isso
Trabalhando para um mundo caduco.
Caduco porque esquece. Não, não a poesia,
Porque ela está em todas as coisas
O esquecido é homem, coisas, a vida...
Um eterno sistema de retroalimentação
Sem sentido, sem fim aparente, sem objetivo.
Que serve apenas para esquecer
E quanto mais se esquece, mais se ganha.
Ninguém sabe ao certo o quê.
Mas graças a Deus há o fim, que é o fim.
Que serve apenas para terminar a poesia.
E nada mais.

16 de dez. de 2010

Fogo fátuo
















Fogo Fátuo¹

Ao andarilho solitário de lugares sombrios
Trago vida, esperança e caminho
Livrando-o naquela noite do frio
Tiro de sua alma fino espinho

Meu brilho a princípio lhe induz litígio
Mas sob luvas velhas e um capuz translúcido
Desapareço sem deixar vestígio
Assim o viajante duvida se está lúcido

E encontra paz, finalmente, na loucura
Sem saber que sou apenas fissura
Fogo de palha, frágil, finito
Alimento parco para seu ego faminto



1- Inflamação espontânea do gás resultante da decomposição de seres vivos. Ver: De onde surgem os fantasmas.

28 de out. de 2010

A Culpa é da Medicina

Disse-me ele certa vez, quando falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média:
- Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente o nosso estido de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição tem seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da Antiguidade, que tivesse que viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quando um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda evidência, toda moral, toda salvação e inocência ficam perdidas para ela. Naturalmente, isto não atinge a todos da mesma maneira.

Bem que eu queria, mas não escrevi o texto acima. Mas achei brilhante, exato e aplicável a situações demais para não compartilhar. O título fui eu quem pus. A culpa é da medicina pois foi ela que nos aumentou a expectativa de vida, fazendo com que culturas diferentes convivam na mesma sociedade.

Reverencia:
HESSE, Herman. O Lobo da Estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 [1927], p. 32.

11 de out. de 2010

Hoje

Hoje não vou falar de amor
Nem cantar minha dor

Não conversarei com as flores
Tampouco mandarei nas cores

Não estou com vontade de tentar ser alguém
Nem desejo matar ninguém

Nada no mundo vai me tirar do lugar

Hoje.


OBS: Texto de 2002.Achei-o arrumando o armário hoje...

27 de set. de 2010

Ironia

Sofia chegou em casa com aquele sorriso irônico no rosto, cheio de malícia. Seu sexto sentido de pai sabia que dali viria uma adolescencia.

- Pai, hoje a gente estudou em História que o Tiririca tem o recorde de votos para Deputado no Brasil. Não é aquele que você tem disco?

(silêncio constrangedor)

- Pois é, minha filha. Foi. Mas eu não votei nele não.
- Eu te deserdaria se você tivesse votado nele, disse Sofia, divertindo-se com a provocação

Ele pensou em explicar que nem se quisesse poderia votar nele, pois ele fora candidato por São Paulo. Preferiu uma rota alternativa:

- A situação política na época era muito diferente de hoje. Havia um descontentamento geral com os políticos. Muita gente achou que votar nele era uma forma de protesto.
- Se o descontentamento era geral, por que as pessoas não se mobilizavam e se candidatavam? Votar num palhaço para protestar, que pessoas burras!

Titubeou. Não conseguia colocar em palavras o imobilismo e o desamimo que dominavam aqueles tempos de sua juventude.

- Você esta mudando de assunto, protestou ela. Eu queria saber o que faz o disco dele na nossa prateleira, bem depois do The Doors e do Titas?
- Eu pedi para sua avó comprar este disco quando criança, lá para uns 8 anos. Era moda na época, anos 1990. O disco ficou na minha coleção, hoje até vale uma grana como raridade bizarra. Nunca mais escutei, diferente de você que tem até hoje músicas da Isabela Belinha no seu iAll.

(silêncio constrangedor)

- Ao menos eu não tive que aturar o Tiririca fazendo discurso em Brasília. Ele não era analfabeto?
- Acredite, minha filha, dos males o menor.

14 de set. de 2010

O erro de Eva

Você inventaria a internet
se soubesse que ela multiplicaria a pornografia infantil?

Você inventaria computadores
se soubesse que eles guiariam mísseis?

Você inventaria a energia nuclear
se Hiroshima e Nagasaki fosse inevitável?

Você inventaria o adubo
se soubesse que o desperdício de comida mataria milhares por inanição?

Você inventaria a eletricidade
sabendo que ela seria o método mais eficiente de tortura?

Você inventaria as caravelas
Se pudesse prever o genocídio de Maias, Astecas, Incas e outros povos sem nome?

Você inventaria a democracia
sabendo o que seria o Brasil do século XXI?

Você inventaria a forja
se soubesse que espadas seriam preferíveis a arados?

Você inventaria a roda
se soubesse que os carros matariam mais do que guerras?

Eu não.

Ignorância é uma benção.

31 de ago. de 2010

Saudade

Eu estava com saudade desse lugar.

Saudade de ser livre. De escrever o que me desse na telha.

Saudade das palavras soltas, que não desejam aprovação, que não desejam convencimento de outrém, que não desejam subversão. Que não desejam ocultar, nem desviar o olhar do essencial.

O bom filho a casa torna; ao lugar que ele mesmo criou.

Aqui é onde posso brincar de Deus, ser pai e filho ao mesmo tempo.

16 de jul. de 2010

No meio (2)

Eu e o Flávio nos inscrevemos no concurso de crônicas da Blooks
Não fomos finalistas, infelizmente. Mas gostaria de compartilhar aqui a crônica que enviamos para lá. Ela já apareceu aqui nO Teatro, mas em dois posts separados (No meio e Direito de resposta). Nós juntamos os dois textos (o segundo foi escrito como continuação do primeiro) e melhoramos algumas partes (ler um texto antigo sem querer tentar melhorar um pouquinho ele é quase impossível)

No Meio

Flávio Vinícius Ferreira de Araújo e Vitor Paiva Pimentel

(...)
- Então você diz porque sim?
- Sim!
- Resumes tudo numa afirmação?
- Não...
- Então negas e
Consideras uma devoção!
- Eu!?
- Meu Deus!
- O quê !?
- Cinismo...
- Não. Abismo. Que se esconde.
- Onde?
- Em frente às favelas, de um povo que reza, e também se confessa.
Que pensa que é gente, mas gente não sente.
Que acha que é, mas só interpreta
o que dizem que Deus quer
mas este mesmo os despreza.
(Pausa)
Me diz isso como algo que se entende
e ainda por cima não se arrepende!?
Você considera tudo sua ciência...
Sua social ciência.
E assim se esquece
dos fatos de antes, da vida de antes,
e acima de tudo, da Divina Providência.
- Não seja sonhador! Dor, dores deveras.
E você me fala das vidas como se fossem primaveras?
- Ah! Quem me dera ser sonhador e não enxergar a dor
Fruto que me dilacera,
E que ao sorrir diz
que não sou apenas esta tão frágil... matéria.
- Inconseqüente!
- Mentes!
- Direito à vida!
- Que viva!
- Adquirida!
- Admitida!
- Mentira!
- Verdade!
- Pedaço!
- Eternidade!
- Efêmera!
- Quimera!
- Que me dilacera se eu não tentar.
Encontrar por meios próprios – seja a social ciência, seja por completa incompetência – a verdadeira mentira.
Que se atira do sétimo andar. Cai. E, para ti*, se esconde, longe do nosso alcance, no céu.
- Porque não tiras o véu? Cegas a ti mesmo por amor a que? O Romântico aqui sou eu...
- Cego-me por medo, confesso. E não me arrependo.
- Cinismo!
- Não, abismo... que se revela. Que me revela. Como apenas mais um do povo.
Povo que talvez reza, talvez calcula, talvez não procura, mas nunca se entrega. Inabalável em sua fé.
- Fé em que?
- Não importa. A fé se basta, intransitiva.
- Divina Providência?
- Ou seja lá em que barco queiras me colocar. Posso colocá-lo em qualquer barco também!
Mas, de um jeito ou de outro, estamos juntos! Estivemos e estaremos! Juntos!
- Para a eternidade...
- Efêmera!
(...)

*Parati é o nome de uma cidade fluminense que tem seu nome em homenagem a um Peixe Branco, seu significado em Tupi (or not Tupi?). É a cidade que cedia a Festa Libertária Internacional.

23 de jun. de 2010

Causa e efeito

Causa e efeito

O Coração é o simbolo do amor. As meninas aprendem logo cedo a cultivá-lo. Margens de cadernos são talhadas de sua representação simplificada. Na web, rapidinho descobriram como desenhá-lo com letras, nada pode impedir de expressar os sentimentos por meio desse simbolo universal S2

Já o Cérebro, coitado, é estigmatizado como frio, calculista, o lado racional. Aquele sujeito malvado, que não tem sentimentos. Os psicopatas são puro cérebro, pessoas sem coração.

Os médicos que me corrijam se eu estiver errado, mas pelos meus parcos conhecimentos de biologia, esta dualidade coração/cérebro é um grande equivoco, e ainda uma tremenda injustiça com o pobre cérebro.

No complexo de reações que é sentir amor, o coração é um mero coadjuvante; ele só bate mais forte porque o cérebro (e normalmente o corpo todo) precisa de mais sangue nesses horas, sendo que quem dispara o coração é a adrenalina, e quem manda as adrenóides produzirem mais adrenalida é? Duh, o cérebro. Aliás, pelo mesmo motivo o coração bate mais rápido quando estamos com medo e com raiva. A diferença dos sentimentos está nos outros hormônios (endorfina, por exemplo) que o cérebro comanda a produção. O coração bater mais forte é um mero detalhe, que aliás ocorre em outras situações. É o cérebro que ama.

Esse senso comum é uma clara confusão de causa por efeito, é tão absurdo quando pensar que o interruptor mudou de posição porque a lampada acendeu.

Tal dualidade, concebida sobre uma falácia evidente, serve apenas para criar uma falsa dicotomia entre razão e emoção, como se estivessem ligados fisicamente a órgãos diferentes do nosso corpo. Não existe razão sem emoção, nem emoção sem razão. Às vezes conseguimos agir mais em função de um ou de outro, mas por motivos totalmente alheios a nossa vontade.

3 de jun. de 2010

Eu vos desafio!

Ou
Regras não são feitas para serem quebradas!

Sim...vos digo que regras, ao contrário do que diz uma frase popular, não são feitas para serem quebradas. Quando inteligente e feitas com real boa vontade, elas têm uma finalidade importante, seja ela social, ética etc. Não, elas não são feitas para serem quebradas, mas sim superadas! Veja, o que vos digo é diferente, as regras têm uma finalidade, porém se elas não server mais a essa finalidade ou conhece-se um outro jeito mais eficaz de se alcançar a finalidade pretendida, sim, devemos ignorá-las! Por que estou dizendo isso? Porque hoje eu vou infringir uma das regras do nosso Blog, mas com a melhor das intenções: a tentativa de gerar reflexões profundas.

Kafka foi um gênio. E, talvez, nesse conto que vos transcrevo está resumida a sua obra e a sua genialidade. Reflitam sobre. E o desafio está aberto, quem chegará mais perto da verdade? Alguém ousa me explicar esse conto?

In Franz Kafka, O processo. São Paulo, Brasiliense, 1995. 6. ed., p. 230-32.

[...] Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. "É possível", diz o porteiro, "mas agora não". Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se posta ao lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta.

Quando nota isso, o porteiro ri e diz: "Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro", O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se havia equipado bem para a viagem, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: "Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa". Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. "O que é que você ainda quer saber?", pergunta o porteiro, "você é insaciável." "Todos aspiram à lei" diz o homem, "como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?" O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: "Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a".

30 de mai. de 2010

Blá blá blá e reflexão

Senhoras e senhores, essa semana eu tinha em mente colocar uma poesia ou um texto sobre o cinema. Infelizmente, o meu processo criativo é muito curioso, vocês se lembram dos 90% de transpiração e 10% de inspiração? Bullshit! Eu não funciono assim, apesar de achar que a transpiração é importante, eu preciso de inspiração. E o azar é que por motivo de forças maiores os momentos em que tenho maior vontade de escrever eu não estou diante de um computador e também a atmosfera não anda muito propícia já que dois computadores aqui de casa estão fora de uso e só posso usar o do quarto dos meus pais. Gosto de escrever sozinho e com total concentração, além de precisar estar em um estado de catarse total com o texto, em que eu realmente o sinta nascendo. Não, o ambiente não me favorece, logo não tive a coragem de escrever os textos que gostaria de publicar. Porém, vos deixo aqui uma curiosa reflexão que tive há alguns dias:

"A publicidade está para a arte assim como o stand-up comedy está para o teatro e Hollywood está para o cinema."

Não, não tenho pretensão de me explicar. Está tudo escrito acima.

17 de mai. de 2010

Expectativas

Acho impossível não criar expectativas. Cinema é expectativa.
As vezes somos surpreendidos; as vezes não.

Problematico é quando esperamos ser surpreendidos.

Desafiei-me um dia a não criar expectativas. Entrei de sopetão pra ver um filme do qual nunca tinha ouvido falar, mas em cujo cartaz achei, não sabia bem o que, algo de interessante.

Depois me recriminei, pois é claro que eu havia criado expectativas quanto ao cartaz... não valeu, obviamente.

Fiquei tentando outras maneiras de não criar expectativas. Fiz o seguinte teste: decidi  ver um filme, e escolhi o local e o horário por conveniência, sem saber o que estaria passado. Chegando lá eu escolheria o filme. Mas é claro que o critério de escolha do filme (no meu caso pelo genero e pelo título) também é uma expectativa. Quando leio um título e comparo com os outros, também envolve expectativas. E a escolha do lugar também influência; eu sei, por experiência, que no Estação passa um determinado tipo de filme, no Arteplex outro, no Severiano Ribeiro outro.

Comprometer-se por duas horas com alguma coisa sempre envolve esperarmos sair dessas duas horas diferentes, seja mais leves, com uma boa comédia, seja com alguma reflexão interessante etc.

Talvez não seja só no cinema...

A questão central, entretanto, é como saber o que esperamos? Se soubessemos, não seria mais uma expectativa. Nunca haveria frustração. Nem agradáveis surpresas.

2 de mai. de 2010

As palavras não ditas Ou As crônicas sobre a solidão

É estranho! Todas as noite ele sai com a galera para conversar e volta com um imenso vazio no peito. Como se as conversas sugassem a sua força vital e retirassem dele parte do ser que era. Se eram conversas animadas? Sim, eram conversas bastante animadas, o que nos faz concluir que era a ele que faltava ânimo. Obviamente e disfarçadamente já não apreciava tanto a companhia dos amigos, apesar de ter por eles uma enorme estima. Sabia então que estava às portas de mais uma crise em que aflora a sua essência paradoxal, mais uma vez seria forçado a lutar uma batalha em que qualquer que seja o resultado ele perderia. Se sentia apenas triste e sozinho, a sua solidão por mais clichê que seja era extremamente acompanhada, a solidão era de dentro para fora e não de fora para dentro como a maioria das solidões. 

Na verdade seus encontros sociais estavam virando quase uma droga, viciante, não sabia ao certo se queria cortar e até eram bons enquanto ainda estava mergulhado neles, porém o efeito posterior era devastador para a sua alma. As conversas lhe pareciam divertidas, porém as conversas divertidas são repletas de lacunas, e essas lacunas pareciam estar tomando corpo. Queria dizer o mundo, gritar coisas importantes, falar sobre arte, literatura, ontologia, filosofia, mesmo sabendo que essas duas são praticamente a mesma coisa, mas não sabia como, ele infelizmente não sabe como começar uma conversa inteligente, ele mal sabe como começar uma conversa tola com uma garota na boate. E isso o entristecia, sabia ele que o seu pior adversário era si próprio: a sua eterna insatisfação diante da vida, a sua sensação constante de derrota, a sua limitação em se expressar...

Sabia que a inteligência e a cultura eram caminhos de solidão, só que ele não era tão inteligente, nem tão culto, então porque tão só? Sabia que mais dias, menos dias iria se deparar com a sua solidão, não a morte não é nem de longe o pior inimigo de um homem, pelo menos não deste. E inconsolavelmente nem para ela ele saberia o que dizer. O que converso eu com a minha solidão? Poderíamos sentar, chamar uns amigos e jogar sueca.Mas isso seria Kafkiano demais e ele prefere o realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez.
Sim, as estirpes condenadas a cem anos de solidão jamais terão uma outra chance sobre a face da terra... Queria ele viver cem anos sobre a face da terra, aprenderia mais, teria mais tempo para ir a museus, shows, teatros, mas ele tem a impressão que ele faz isso sozinho demais. Na verdade ele não é tão só, tem uma alma profunda demais, se quisesse poderia repartir a alma em pedacinhos e criar várias personalidades que lhe entretessem. Porém, isso se chama esquizofrenia e ele já tem muitos problemas.

Ele sente uma enorme pressão para ser alguém na vida. Ele já inventou nome, posto, camada social, profissão, personalidade e tudo o mais, apenas não sabe como fazer para chegar a ser esta pessoa. Na verdade, ele sente um intenso medo de que esta pessoa já exista, pois ele também não sabe ao certo o que dizer para tal pessoa.

Não e sim. Ele sabe que tem que dizer mais, muito mais do que ele expressa numa noite boêmia nas ruas do Rio de Janeiro. Só que as palavras são feitas do mesmo material etéreo que são feitos os pensamentos, e em seu egoísmo ele guarda as palavras para si mesmo. Talvez, se por um momento conseguisse criar uma fenda em seu casulo social, aí sim ele dissesse as palavras não ditas, aquelas que ficam nas entrelinhas, no interstício, no intrínseco de seu próprio ser, ele talvez fosse feliz ou talvez não fosse compreendido e tudo soasse apenas como uma epifania ou um momento de loucura...Então, é por isso que ele escreve...

17 de abr. de 2010

Não tenho personalidade

Não tenho personalidade. Sou uma mistura de todas as experiências que já tive. De cada pessoa absorvo um trejeito, uma gíria, um pensamento.

Não sou insubstituível nem único. Sou um fabricante de máscaras, trabalho com fragmentos de minhas presas. Somente eu as uso. Significo para você o que eu quiser.

Não sou sempre o mesmo. Com cada indivíduo que converso travisto-me de filosofia diferente, adapto-me às circunstâncias. Sou um camaleão. Não possuo identidade própria. Adquiro facilmente a coloração do ambiente.

Ao contrário de você, todos os meus movimentos são estudados e pensados. Sim, eu me estudo a todo o momento, nos mínimos detalhes. Meu nascimento é um roubo. Os gregos até hoje procuram as máscaras que usavam para encenar suas peças. Conheço e compreendo como poucos a minha história, sei onde e quando aprendi sobre cada assunto.

Prezo pela verdade, mas sou um mentiroso. Não por desconhecer a verdade, ou dela duvidar. Tampouco vanglorio a mentira terapêutica. Pelo contrário, conheço tão bem a verdade que a acho desinteressante. Prefiro mentir para poder me enveredar pelas tuas entranhas e sugar o teu sangue. Sou sanguessuga. Um sanguessuga de idéias. Já imaginou o poder de um camaleão sanguessuga? Sim, este sou eu.

Minha busca é pelo que não sou capaz de traduzir. Portanto, não se preocupe, não lhe faço mal algum. A finalidade de minha existência depende da sua, sou daquele tipo de parasita que morre junto com seu hospedeiro.

Você já me conhece há muito tempo, mas nunca nos apresentamos. Muito prazer, me chamam Palavra. Seja bem vindo a minha morada, O Teatro.

8 de abr. de 2010

Aniversário: 4 anos

É com muito orgulho que hoje completamos nosso quarto ano de blog.

Viver é o que acontece enquanto fazemos planos: da nossa idéia inicial, um espaço para que amigos se mantivessem em contato e lessem os textos uns dos outros, talvez não tenha sobrado muito. Vários passaram por aqui, mas somente eu e o Flávio permanecemos. Houve momentos de baixa, é verdade. Mas estamos aqui.

Para mim, escrever não é simples. Sou apaixonado pelo processo, apesar de ele ser doloroso. Cada um é o maior crítico de si, e muitas vezes o motivo que nos leva à escrita não é digno do papel. Para romper o silêncio, é preciso antes superá-lo.

Quatro anos depois, meu único incomodo com o formato blog é a sua a temporalidade. Os textos aqui dO Teatro tem uma intenção de serem eternos, não meros comentários de conjuntura.

Por isso, escolhi três textos bem antigos para indicar-lhes, caríssimos leitores:

Mariana, nossa sonhadora, nosso Limão Lilás foi co-fundadora dO Teatro; mas depois a vida a levou por outros caminhos; amamos muito ela, e esse texto é para mim arrebatador, volta e meia gosto de relê-lo:
Era um nó

Os bons momentos do Flávio são tantos, que confesso quase um assassino por tentar escolher. Mas na verdade tenho um veio psicopata, e escolho:
Poema a uma bela

Escolher o melhor de seus textos é como perguntar a um pai qual o filho preferido dele. Cada filho tem um gênero, e cada um é o preferido desse gênero. Meu critério aqui é histórico, escolhi o meu texto do gênero que me iniciou na literatura, a crônica:
Conto do ônibus

Por acaso, todos os textos foram publicados em 2006. Aqueles que acompanham o blog, não importa desde quando, por favor sintam-se convidados a lembrar de algum texto em particular que lhes tenha marcado de algum modo.

Um grande abraço e muito obrigado!
Vitor