16 de dez. de 2010

Fogo fátuo
















Fogo Fátuo¹

Ao andarilho solitário de lugares sombrios
Trago vida, esperança e caminho
Livrando-o naquela noite do frio
Tiro de sua alma fino espinho

Meu brilho a princípio lhe induz litígio
Mas sob luvas velhas e um capuz translúcido
Desapareço sem deixar vestígio
Assim o viajante duvida se está lúcido

E encontra paz, finalmente, na loucura
Sem saber que sou apenas fissura
Fogo de palha, frágil, finito
Alimento parco para seu ego faminto



1- Inflamação espontânea do gás resultante da decomposição de seres vivos. Ver: De onde surgem os fantasmas.

28 de out. de 2010

A Culpa é da Medicina

Disse-me ele certa vez, quando falávamos a propósito das chamadas crueldades da Idade Média:
- Tais horrores na verdade não existiram. Um homem da Idade Média condenaria totalmente o nosso estido de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro. Cada época, cada cultura, cada costume e tradição tem seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da Antiguidade, que tivesse que viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quando um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda evidência, toda moral, toda salvação e inocência ficam perdidas para ela. Naturalmente, isto não atinge a todos da mesma maneira.

Bem que eu queria, mas não escrevi o texto acima. Mas achei brilhante, exato e aplicável a situações demais para não compartilhar. O título fui eu quem pus. A culpa é da medicina pois foi ela que nos aumentou a expectativa de vida, fazendo com que culturas diferentes convivam na mesma sociedade.

Reverencia:
HESSE, Herman. O Lobo da Estepe. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 [1927], p. 32.

11 de out. de 2010

Hoje

Hoje não vou falar de amor
Nem cantar minha dor

Não conversarei com as flores
Tampouco mandarei nas cores

Não estou com vontade de tentar ser alguém
Nem desejo matar ninguém

Nada no mundo vai me tirar do lugar

Hoje.


OBS: Texto de 2002.Achei-o arrumando o armário hoje...

27 de set. de 2010

Ironia

Sofia chegou em casa com aquele sorriso irônico no rosto, cheio de malícia. Seu sexto sentido de pai sabia que dali viria uma adolescencia.

- Pai, hoje a gente estudou em História que o Tiririca tem o recorde de votos para Deputado no Brasil. Não é aquele que você tem disco?

(silêncio constrangedor)

- Pois é, minha filha. Foi. Mas eu não votei nele não.
- Eu te deserdaria se você tivesse votado nele, disse Sofia, divertindo-se com a provocação

Ele pensou em explicar que nem se quisesse poderia votar nele, pois ele fora candidato por São Paulo. Preferiu uma rota alternativa:

- A situação política na época era muito diferente de hoje. Havia um descontentamento geral com os políticos. Muita gente achou que votar nele era uma forma de protesto.
- Se o descontentamento era geral, por que as pessoas não se mobilizavam e se candidatavam? Votar num palhaço para protestar, que pessoas burras!

Titubeou. Não conseguia colocar em palavras o imobilismo e o desamimo que dominavam aqueles tempos de sua juventude.

- Você esta mudando de assunto, protestou ela. Eu queria saber o que faz o disco dele na nossa prateleira, bem depois do The Doors e do Titas?
- Eu pedi para sua avó comprar este disco quando criança, lá para uns 8 anos. Era moda na época, anos 1990. O disco ficou na minha coleção, hoje até vale uma grana como raridade bizarra. Nunca mais escutei, diferente de você que tem até hoje músicas da Isabela Belinha no seu iAll.

(silêncio constrangedor)

- Ao menos eu não tive que aturar o Tiririca fazendo discurso em Brasília. Ele não era analfabeto?
- Acredite, minha filha, dos males o menor.

14 de set. de 2010

O erro de Eva

Você inventaria a internet
se soubesse que ela multiplicaria a pornografia infantil?

Você inventaria computadores
se soubesse que eles guiariam mísseis?

Você inventaria a energia nuclear
se Hiroshima e Nagasaki fosse inevitável?

Você inventaria o adubo
se soubesse que o desperdício de comida mataria milhares por inanição?

Você inventaria a eletricidade
sabendo que ela seria o método mais eficiente de tortura?

Você inventaria as caravelas
Se pudesse prever o genocídio de Maias, Astecas, Incas e outros povos sem nome?

Você inventaria a democracia
sabendo o que seria o Brasil do século XXI?

Você inventaria a forja
se soubesse que espadas seriam preferíveis a arados?

Você inventaria a roda
se soubesse que os carros matariam mais do que guerras?

Eu não.

Ignorância é uma benção.